Ele esbraveja irritado e gesticula como se estivesse a ponto de iniciar uma briga. Suas roupas rasgadas, os pés descalços e um insistente amigo imaginário denunciam o quadro clínico do rapaz, que deve ter um pouco mais de 40 anos. Quem passa olha, ri, tira sarro, mas quase sempre ignora aquele que faz parte das estatísticas. Mas, pela minha aproximação com a loucura, decidi entender suas palavras.
Debaixo do sol quente manauara, o louco fazia críticas ferrenhas ao sistema de transporte coletivo, aos buracos na rua, à casinha do médico da família que não tem remédio, aos vereadores com seus mega-salários, e ao ministro “fajuto” dos transportes. Mostrou uma consciência política pouco encontrada em jovens universitários, sãos, e com a responsabilidade de dar um futuro melhor à nação.
O mais legal era a facilidade de agregar tudo em um único discurso, e de falar com propriedade das limitações de serviços públicos que eu achava que ele nem usufruía. Pois bem. Com exceção de mim, e de alguns outros ouvintes, o grito de revolta do rapaz evaporou com o sol, e não deve fazer nenhuma chuvinha. Ninguém vai comentar, ninguém vai se explicar, ninguém vai procurar melhorar. No máximo, concordar.
Mas ele não é o único, pode ter certeza. Todo mês a classe estudantil faz manifestações, para o trânsito caótico de Manaus, pinta a cara dos vereadores, grita, xinga e….e nada. A meia passagem continua restrita. As filas voltaram porque não se pode mais pagar com dinheiro na catraca. Não adiantou tanto alvoroço. A administração municipal ignora esse monte de loucos, e um dia é capaz de internar.
Parabéns, Manaus






