Manaus virou um caos da noite pro dia, com a atitude da Câmara do Vereadores de restringir de 120 para 44 o número de passes estudantis disponíveis por mês. Manifestações surgem inesperadamente em diversos locais da cidade, demostrando que a classe ainda tem um belo poder de mobilização.
Quero deixar claro que a palavra “caos” é usada com uma pequena dose de sarcasmo, pois sou completamente a favor de atos populares como esse, principalmente por uma causa tão importante. O que me preocupa, porém, é que os estudantes manauaras só estão correndo atrás do prejuízo, tentando sarar dos ataques que se deixou sofrer.
Digo isso com uma certa propriedade, pois noséculo passado fui presidente da União Municipal dos Estudantes Secundaristas (UMES), e à frente da entidade tivemos que enfrentar os mesmos problemas vividos hoje. Aliás, é bom que fique claro; prefeitura e empresários tentam, há décadas, tirar da gente um direito conquistado por meus precursores.
Sempre que entrava o ano, o prefeito da vez, aliado à quadrilha de empresários, convencia a CMM a votar uma lei restringindo o número de passes e os dias e horários de utilização, como fizeram agora. A estratégia de pegar os secundaristas de férias não adiantava, pois a UFAM sempre foi parceira na luta e a sociedade apoiava nossos atos.
Colocávamos carro de som em frente à Prefeitura a Câmara pra fazer barulho. Invadíamos sessões e cobrávamos o passo atrás que vinha no fim do dia. Hoje não se vê mais isso. Um amigo meu bem radical diz até que estudante de hoje não joga mais nenhuma pedrinha em ônibus. Não sou a favor de depredações, mas sim de medidas enérgicas.
O que vejo hoje são centenas de entidades que dizem representar os estudantes, uma pra cada concepção política. Elas imprimem tudo que existe de mais atrasado na política. Batem palma pra políticos corruptos, ou se calam por um carguinho aqui e outro alí. O interesse dos dirigentes, há muito, se sobrepôs à vontade coletiva.
Acabei de descobrir que o prefeito vestiu a manta do populista e voltou atrás na decisão, garantindo os 120 passes. Beleza. Pena que ele foi ovacionado pelos estudantes como salvador da pátria. Esqueceram que dele o comando desse grupo político, que foi dele a idéia de reduzir a meia passagem, diminuir as verbas da educação, acabar com o Prosed…
Se confirmada a decisão, parabéns para os estudantes que se revoltaram desde o início e lutaram contra. E fica o apelo para que estejamos mais atentos aos ataques, que não irão cessar. Vamos desmascarar as falsas lideranças. Esses estudantes de 50 anos que vivem engravatados e frequentam casas e festas de políticos.
Tenho medo da influência dessas pessoas na nossa sociedade, mas tenho ainda mais medo de que algo faça com que nossa juventude perca a capacidade de se indignar. Tenho 24 anos e ainda sou estudante. Não fui às ruas desta vez, mas tento fazer minha parte de alguma forma. No dia em que tiver filhos, espero o mesmo espírito de luta, mas por novos ideais.