Nós é true, mano

Ora, ora, não é que um leitor assíduo do Agridoce reclamou da falta de atualização do blog? Confesso que isso, além de me surpreender, me deixou animado pra escrever. Então lá vai mais um daqueles posts chibatas e supercomentados diretamente do lugar onde eu deveria estar trabalhando, mas não estou. Ops.

Bom, ultimamente eu tenho andado meio sem tempo pra escrever no blog: estou estudando, trabalhando e também envolvido com a minha banda. Pra quem não sabe, eu sou baixista da Aliases, uma banda de rock alternativo aqui de Manaus. Sábado a Aliases foi convidada pra gravar o programa “Qualé”, do Amazon Sat, mas isso não rolou depois que aconteceram umas coisas lamentáveis. Eu ainda nem falei muito sobre isso com ninguém, mas acho que vale o desabafo pra vocês conhecerem um pouco da realidade tanto do músico quanto do profissional de TV em Manaus.

Here’s the deal: Sábado à tarde, depois de todos os quatro membros da banda fazerem reais sacrifícios (trabalho – estudo – namorada – acordar cedo) pra se encontrar, nós fomos lá pro estúdio onde seria gravado o programa. O estúdio fica no conjunto Nova República, lá pros idos, mas bem idos mesmo, do Distrito Industrial, que por si só já fica longe de quase tudo aqui na cidade. O azarado da vez fui eu, porque a banda foi toda no meu carro e eu tive que arcar com os custos da gasosa e possivelmente da suspensão do carro. Mas até aí tudo certo, afinal, nós é true, nós é independente, mano.

Depois de chegar ao estúdio, nós soubemos pelo dono do lugar que uma outra banda já estava ensaiando e possivelmente ia gravar o programa do qual supostamente a gente ia participar. Quando nós finalmente conseguimos falar com a produtora do programa pra esclarecer isso, por telefone, ela disse que estava ilhada no Amazon Sat, sem veículo pra conduzi-la até o estúdio, e não sabia que horas ia poder gravar o programa conosco. Como infelizmente nós não somos mais desocupados e tínhamos compromissos, acabamos voltando pra casa sem a gravação e com os prejuízos de tempo e dinheiro já citados. Mas a tristeza ainda teria seu ápice.

Chateado com a situação, assim como todos da banda, eu liguei de novo pra produtora e nós tivemos uma conversa mais inflamada. Ela disse que não tinha nos avisado do problema na TV porque não tinha o telefone de ninguém da banda e eu disse pra ela que isso era um erro grave, porque como uma produtora de um programa de televisão, seja ele qual for, não tem o contato da pessoa que vai participar do mesmo?

Já um pouco mais chateada com as minhas críticas, ela deu dois argumentos principais pra justificar porque nós tínhamos que compreender a situação e não reclamar. 1º) O Amazon Sat não era uma Rede Globo de Televisão; e 2º) situação pior já tinha acontecido à banda de reggae Casulo, que tinha passado quatro horas esperando no Parque do Mindu, e nem por isso eles tinham tido ataques de estrelismo. Ela ainda disse que nós tínhamos sido irresponsáveis de ter ido pro estúdio no horário e na data combinados sem antes ligar pra ela. (Pausa: agora realmente precisarei de alguns minutos pra gritar, respirar fundo e recuperar a tranqüilidade).

Bom, já tendo participado de alguns programas de televisão como músico e conhecido a estrutura deles como estudante de jornalismo, eu posso dizer que esse tipo de coisa acontece com freqüência na cidade. Mas o que mais dói é que você faz tudo certo, é sacaneado e não tem nem mesmo o direito de ter a razão? Ficar chateado? FICAR PUTO? E olha que eu sou um cara que nunca fico puto. Esclarecendo: nós é true, mano, mas não leso.

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Mídia em Debate

Olá querido leitor do Agridoce.  O Andrés continua ausente e eu, mesmo que sem muito tempo, tento atualizar o blog com coisas legais pra você ler e refletir.  O post dessa semana traz uma matéria publicada na última quarta-feira (12/12), no jornal A Crítica, que descreve, com riqueza de detalhes, um abuso sexual cometido por policiais militares contra uma mulher.   É uma matéria que acabou ficando bizarramente engraçada, ao menos pra mim, apesar do assunto sério que aborda.  O texto completo está no final do post.  É desnecessário dizer que a leitura é proibida para menores de 18 anos.   

Bom, o blog Agridoce também quer parabenizar neste post toda a equipe do programa Mídia em Debate, que na última quinta-feira estreou com o pé direito (na nossa humilde opinião) na TV Ufam.  Apesar de alguns problemas técnicos, a edição de estréia trouxe um assunto importante – TV Pública – e ajudou a clarear as discussões acerca do tema.  Aliás, gostei muito da participação da jornalista Thais Brianezzi (é assim que escreve?), que insistiu em vários momentos em adaptar a linguagem um pouco mais técnica do outro entrevistado, Pedro Moura, pra fazer o telespectador compreender melhor.   

Enfim, nós estamos vendo o quanto vocês da equipe do programa estão se esforçando e temos certeza que o trabalho vai dar um excelente resultado.  Fazemos nossas também todas as palavras de sucesso e de boa sorte da professora Ivânia no dia do evento do lançamento do programa.  By the way: o blog Agridoce, assim como 99,9% dos alunos de comunicação da Ufam e provavelmente do universo, ama a professora Ivânia Vieira.  Paga-pau total. 

Por aqui me despeço desejando a todos um ótimo final de semana.  Hoje foi aniversário do Sílvio, então talvez role de nós fazermos algo pra comemorar mais tarde.  Amanhã tem o lançamento do EP da Mezatrio, uma banda bem legal daqui de Manaus, lá no Bar Dinastia.  Quem puder comparecer, não vai se arrepender.  Depois me conta como foi porque eu não vou poder ir :/  

Abraços

Rocam é suspeita de abuso

Três policiais Militares das Rondas Ostensivas Cândido Mariano (Rocam) estão sendo investigados por abuso sexual contra a dona de casa Maria da Silva*, 22. Ela disse que os policiais a apalparam, “mamaram” em seus seios, se masturbaram e jogaram o sêmen na barriga dela.  Ontem, no final da tarde, ela recebeu uma recado da parte dos policiais dizendo: “Tu ficas de boca calada senão tu vais aparecer crivada de balas”.

O recado chegou a vítima acompanhado da bateria do celular dela que os policiais levaram no dia que cometeram o crime.  O caso aconteceu no domingo, dia 9. Maria da Silva contou que é moradora de Educandos, e que participava de um aniversário na casa do padrinho do filho dela, na rua Beira-Mar, no bairro Colônia Oliveira Machado, Zona Sul, quando, por volta das 20h, ela conversava na calçada com um amigo: Jonas Silva o “Nena”. Nesse momento, ela conta que começou uma correria pela rua. “As pessoas entraram para as suas casas. Eu entrei na de Jonas. Foi quando três policiais invadiram o local. Eles estavam procurando droga”, disse a mulher. 

Segundo Maria, com os PMs estavam dois homens algemados. Os três policiais teriam arrombado uma outra casa ao lado e teriam saído de lá com uma porção de maconha. “Eles disseram para Jonas que a casa havia caído e que ele ia para a cadeia”, contou Maria. De repente, um dos policiais mostrou a maconha para ela dizendo que se ela não fizesse tudo que eles queriam que ela ia também para a cadeia. Maria disse que foi levada para um dos quartos da casa por um dos policiais que usava bigode.  

O soldado mandou que ela tirasse a blusa. Maria argumentou que no momento não estava usando sutiã, mas, mesmo assim, ela foi obrigada e levantou a roupa. O soldado teria visto os seios dela e passou a apertá-los e em seguida passou a sugá-los. Em seguida, os outros soldados entraram no quarto e um deles mandou que ela tirasse a bermuda e ficasse só de calcinha. Logo, ele mandou que ela tirasse também a calcinha e ela o fez e que o soldado passou a acariciar e beijar a vagina dela. 

Um PM que tinha uma cicatriz na cabeça mandou o colega parar e sair do quarto.  O soldado com cicatriz perguntou se ela tinha camisinha e ela disse que não. “Ele perguntou se podia confiar em mim e disse que eu era muito bonitinha para ser prostituta”, contou a dona de casa. Esse mesmo PM teria esfregado o pênis nas coxas dela e ejaculado na barriga dela, enquanto os outros dois se masturbavam e depois jogaram também sêmen nela. Quando terminaram, a mulher disse que os PMs a mandaram vestir a roupa e sair do quarto. O soldado com cicatriz disse que Maria ficasse de “bico calado”, senão iria matá-la. Segundo a denunciante, ele disse isso mostrando a farda e dizendo que era autoridade. Maria disse que viu o rosto dos PMs e que consegue reconhecê-los.

O inaceitável. O inconcebível. O de sempre.

Na última terça-feira, 4, o Senado Federal votou pela não-cassação do mandato do senador Renan Calheiros. Ele, por sua vez, renunciou à presidência da Casa dizendo que sai de cabeça erguida e que é inocente.  Resultado? Pizza (e olha que nem é uma de doce-de-leite da Ghiotto).

 Isso é um absurdo? Uma vergonha para o Senado? Um episódio sem antecedentes na (suja) história política brasileira? Antes fosse.  Outros episódios como esse já aconteceram e voltarão a acontecer.  Mas o que me deixa mais incomodado e que têm que mudar são os discursos. Os discursos treinados, destes que soam como repeteco e ofendem não por desferir aberrações, mas por incitar reações que duram até o momento que as palavras acabam. São discursos tônicos no momento, mas átonos no alcance.

 A propósito, seguem declarações dadas pelos senadores amazonenses pós-absolvição de Renan Calheiros nas duas votações. Os trechos foram retirados de matérias publicadas no jornal A CRÍTICA nas datas e no contexto que seguem expressos.

 “A Casa perdeu e muito, a democracia também. Quem venceu foi a crise que o Senado continua vivendo” (…) “Não aceitamos a presidência dele. O PSDB não aceita. E amanhã (hoje) vamos pedir que se afaste” 
Senador Artur Neto, líder do PSDB no Senado, em 13 de setembro de 2007, depois da primeira absolvição de Renan Calheiros
 

“Foi um ato absolutamente desmoralizante. Entre uma pessoa e uma instituição, o Senado optou por uma pessoa. Não soube criar uma couraça que servisse de anteparo à instituição. Houve um acórdão do PT com o PMDB em troca da prorrogação da CPMF, mas beliscou também votos na oposição” (…)  “Sabia que ele seria absolvido. Mas não achava que seria tão aberrante. O Senado vai pagar uns bons anos com o desapreço popular. É um dia para não se comemorar. Foi nocivo para a democracia. E abriu espaço para a hipertrofia do executivo”.
 Senador Artur Neto, dois meses e vinte e três dias mais tarde, após a segunda absolvição de Renan Calheiros 

“Perde o Senado, a classe política, a democracia, o Brasil. A casa vira agora a Geni nacional. Isso mostra na sua inteireza o que é a maioria dos políticos que o País tem”, diz Péres, enfatizando que esse lamentável episódio da política brasileira só reforça a sua decisão de abandonar a carreira. (…) “Se ele insistir em permanecer, vai ser uma figura decorativa, um zumbi, pois perdeu o respeito dos senadores”.
 Senador Jefferson Péres (PDT), em 13 de setembro de 2007, depois da primeira absolvição de Renan Calheiros

 “Quem perdeu foi o Senado. Quando a classe política se desmoraliza, abre caminho para aventuras autoritárias. Esse é o problema maior. É o ovo da serpente como germe de experiências autoritárias.”
 Senador Jefferson Péres, dois meses e vinte e três dias mais tarde, após a segunda absolvição de Renan Calheiros

 O intervalo de tempo explicitado é razoável para a promoção de atitudes ou de mudanças efetivas nas práticas que se têm como erradas. Mas houve correções ou apenas as práticas erradas se repetiram, ou, ainda pior, aumentaram? Ou o senador Jefférson Péres pendurou as chuteiras após tanta decepção?

 Uma noção clara que fica da leitura dos discursos dos senadores é a de que o Senado Federal sempre perde.  Parece até o meu querido e eternamente amado Corinthians.  Só que no futebol as coisas são mais dinâmicas.  Saco de pancadas, o Corinthians caiu pra Série B. E o Senado, saco de críticas, cai pra onde? Ou não cai?

A meu ver, cai na opinião pública, paga, como o próprio senador Artur Neto menciona, com o desapreço popular.  Mas até que ponto isso é realmente preocupante, tanto para nós quanto para eles? Como nós, cidadãos críticos, podemos alterar estas práticas e melhorar a nossa representação política? Por meio do voto? Não tem funcionado.  Por meio da violência ou experiências autoritárias? Nunca. Por meio dos princípios e das metodologias instituídas na Constituição? Em um plano teórico, sim, mas em uma esfera prática, com tantas artimanhas e tantos desrespeitos legais, também não.  Eu juro que não sei a resposta.  Talvez eu seja muito novo e esteja falando merdas absurdas.  Mas, além de fazer sexo com maior freqüência e intensidade, talvez falar merda seja uma das coisas mais legais de se fazer enquanto jovens.
 

Abraços,
 da equipe Agridoce