Crônicas de Bala

É minha a responsabilidade de escrever o primeiro post do Agridoce deste novo ano. Aliás, confesso que tenho andado sumidinho destas paragens, também bastante envolvido em projetos pessoais. Minha sorte é que tenho um irmaozão dividindo a tarefa de manter esse blog atualizado, e agradeço ao Diego por não deixar essa peteca cair.

Quero aproveitar esse post também para desejar a todos os leitores do Agridoce um ótimo 2008, com muita paz, saúde, sucesso e dinheiro, e principalmente muito amor no coração. Fiquem agora com esta pequena crônica, que me rendeu uma notinha boa nas aulas de Jornalismo Opinativo =) . Divido com vocês.

O Bala, O Comodismo e a Canalhice

As vezes paro pra pensar no passado, e relembrar velhas histórias e amigos que minha intensa juventude me fez viver. O último que recordo era um cara especial, que há muito não faz parte da minha vida, mas acho que merece reconhecimento e homenagem em meus textos. Seu nome era Ricardo Aurélio, mas era conhecido como “Bala”. O motivo de certo existia, mas ninguém sabia explicar.

Bala sempre foi lembrado como uma companhia agradável nos tempos de escola. Longe de ser brilhante nos estudos, o rapaz sempre mostrou uma determinação incrível para aceitar as coisas da forma que nós, “cabeças da turma”, propuséssemos. Bala jogava vôlei, bola, pedra, cartas, avião de papel, era só dar a idéia. Pulava muro, riscava cadeira, ficava quieto e se sacrificava pelo grupo assumindo autoria dos pequenos crimes de nossa infato- marginalidade. Tudo que o mestre mandar.

Nosso esquálido amigo era incapaz de contestar uma decisão da turma, mesmo que ele soubesse que aquilo era contra a sua vontade (as vezes nem sei se ele tinha vontade). E isso era muito cômodo para nós, e parecia ainda mais para ele. Hoje não sei como vive o Bala. A última notícia que tive do rapaz é que ele havia casado, e estava morando em Belém, terra da família de sua esposa. Espero que ele esteja muito feliz.

Durante todos os dias de nossas vidas encontramos Balas espalhados pelo mundo. Na faculdade, no trabalho, na rua de casa, no grupo de amigos da pelada (tem aquele que sempre aceita ficar no gol). Mas uma coisa é certa, pessoas como ele fazem isso por que acreditam ser a melhor opção, porque optam por não ter tanto trabalho em fazer escolhas.

O pior são aqueles que têm como dever questionar, e a obrigação de contestar atitudes incoerentes e totalitárias, e não o fazem por interesse próprio, por um aditivo no 15º salário, por uma convocação especial. Queria não ser tão específico, mas as objetivas descrições me remetem a uma figura singular na sociedade amazonense: Os deputados estaduais.

É que há poucos dias perdi horas de uma tarde de domingo assistindo a uma sessão da Assembléia Legislativa do Estado, e fiquei assombrado com o nível de homogeneidade do discurso, e a incapacidade de contestação quando o assunto está relacionado aos interesses do executivo estadual. São 23 Balas balançando a cabeça positivamente, em um bailado que arranca sorrisos do governador, e enchem de prendas os bolsos desses senhores. Bem diferente da aquarela de discursos e idéias que permeavam as discussões na ALE há pouco tempo.

Do outro lado, a outra categoria de Balas também engole calada tais decisões, também limita-se a aceitar (e os mais ousados lamentam) esses posicionamentos, que em muito influenciarão suas vidas. Mesmo com o poder de mudança na mão, preferem manter o tradicionalismo, o que não tem incomodado, o que dói pouco, o que rouba mas faz. Sacrificam suas opiniões para que não haja um desencaixe no quebra-cabeça da sociedade.

Pessoas como o Bala podem viver uma vida inteira acreditando que não precisam fazer nada pra mudar sua condição, e ainda assim serão felizes, ou apenas crerão nisso durante todos os seus dias. Mas aqueles que se acomodam por interesse, que se omitem em defender o que devem, esses sentirão o peso da consciência mais na frente. A dor se transfere a eles, a culpa pela omissão. Se me perguntam que Bala quero ser: Respondo: Nenhum! Mas caso não consiga evoluir para uma condição melhor, que minha acomodação doa só em mim.

Anúncios

5 comentários sobre “Crônicas de Bala

  1. Robinne Conte

    Olááá!
    Primeira vez que estou visitando o seu blog e quero parabenizá-lo, está excelente! Você escreve muito bem, adorei a última crônica que postastes…
    Grande abraço, tenha um ótimo fianl de semana!
    Virei agora visitar o seu blog, ok?!
    Beijos, 😉

  2. Ismael Benigno

    Andrés, a esperança de muitos de nós, alguns já cansados de ter raiva, é a tua geração. Me preocupo quando vejo os olhares de alguns estudantes de jornalismo, às vezes meio desanimados com as notícias que devem apurar. A esperança é que esta legião de Balas, espalhados na imprensa local, na multidão de leitores, entre os contribuintes, tenha algum herói (ou louco) pra ter como exemplo. É preciso ser louco, sob tais circunstâncias, para que haja chance de mudança. Não precisamos de revolução, mas de barulho. Precisamos que o tom se eleve, que alguns sejam cutucados incansavelmente. Estou convencido de que não somos mais Balas. A necessidade agora é convencer os Balas de que eles podem ser outra coisa. Ótimo texto, Andrés.

  3. Daniel - UFF

    Po, cara, realmente acontece muito isso aqui, até mesmo na faculdade. Por interesses pessoais as pessoas acabam não ajudando no que é melhor para o coletivo. A falta de engajamento dificulta muito um trabalho a ser realizado, e sozinho é praticamente impossível fazer certos tipos de coisas.
    Parabéns pelo texto!

  4. Andrés, essse texto tá ótimo e merece realmente uma nota boa na aula de jornalismo opinativo, huahauhuah… e sem querer ser pessimista, te prepara que essa angústia típica do jornalista não passa tão cedo…

    PS: Obrigado pela menção honrosa de alguns posts anteriores, viu? Se cuida.

  5. Ruth Madeira

    Sabe o que é mais interessante dessa tua observaçao da assembléia, é o discurso realizado pelo Governo, que combinado com o esse comportamento dos nossos politicos, nos lembram do tão famoso “pão e circo” de Machiavel, que serve e é utilizado pela grande maioria que tem o poder realmente de melhorar ou hamenizar a situação em que vivemos….
    Meu saudoso pai me dizia, que mesmo quando o político ingressa com boas intençoes, isso porque já nas eleiçoes ele já se corrompe, lá no meio das laranjas podres ele se torna uma delas, por comodismo ou por não visualizar uma forma de não se tornar um deles….
    É triste mesmo, desesperançoso até…mas como comentaram anteriormente a mim, a esperança são vcs, jovens jornalistas comprometidos, atraves de valores que a sociedade não conhece mais por falta de sua utilizaçao, por serem denominados demodês ou sem qualquer valia….
    Abraços…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s