Teatro do Oprimido

Boal

Semana passada, em uma viagem de ônibus de casa para o trabalho, me vi em uma situação que muito me lembrou uma encenação do Teatro do Oprimido, do teatrólogo carioca Augusto Boal. Nesse gênero, criado por Boal, os atores são introduzidos ocultamente em diversos ambientes da sociedade, e, de várias maneiras instigam, as pessoas ao redor a participarem dessa encenação. Esse tipo de coisa pode acontecer em restaurantes, bares, filas de banco, repartições públicas e até mesmo em ônibus, como no caso que lhes relatarei:

 

Cedi meu lugar a uma senhora de idade que me agradeceu e logo em seguida bradou:

– Olha, meu filho, nunca fique velho, viu? Eu passei 3 horas na fila daquela Caixa Econômica pra ser atendida e a cretina daquela mulher falou que eu não podia resolver meu pobrema.

Assustado, olhei para o lado me perguntando se era comigo. Ela continuou.

– To acordada desde às 5h da manhã pra receber o dinheiro que minha filha mandou lá de Santarém, e aquela desgraçada diz que eu tenho que ter um tal de cadrasto.

Ao perceber que era comigo demonstrei um tímido interesse. Mas foi aí que começou a interação.

– É uma sacanagem mesmo, ontem perdi trabalho pra tentar tirar a segunda via do meu CPF e ninguém soube me informar o que eu tinha que levar – Gritou um senhor bigodudo duas poltronas atrás.

A senhora, agora empolgada, soltou as sacolas e continuou:

Pois é, minino, a gente fica lá com cara de lesa e a inda vem aquela escrota (mudança constante de adjetivos) dizer que não adianta nada. Como vou comprar os caderno dos minino lá de casa? – falou a senhora, agora em um tom misto de choro e revolta.

– O pior é que esses materiais estão a cada ano mais caros. Nem sei como vou fazer pra comprar todos os livros da minha filha – falou uma mulher também bigoduda, ao lado da senhora.
Boal, cadê você?Procurei câmeras do Faustão. Será que estou em uma pegadinha? Meu desespero foi crescendo.

– E eu, que tava comprando os livros do Kellysson ontem, quando começou a chover. Molhou tudo, menina. Ainda tive que voltar pro trabalho toda enlameada – Falou uma voz atrás de mim, que não consegui identificar em meio a um grupo de mulheres fardadas.

O desespero virou angústia. O que parecia embaraçoso agora me deixava triste. Quase todo o ônibus tinha algo pra dizer. Uma experiência, um relato, um protesto. E eu? Não tenho nada pra contribuir com aquela conversa. Eu era um inútil naquele ônibus. Em mim, Boal não conseguiu despertar o sentimento de Transformação Social, que ele tanto defendia no teatro.

Envergonhado, desci correndo assim que cheguei na minha parada. No último degrau ainda pude ouvir a voz da senhora que gritava horrorizada:

– Ei, motorista, não é tua mãe que ta aqui não.

 

 

“Mas esse caos de gente é um sinal de que algo está pra acontecer” – Raul Seixas

 

Por Andrés Pascal

 

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3 comentários sobre “Teatro do Oprimido

  1. Essas coisas acontecem bastante comigo também. De vez em quando, aqui mesmo no meu trabalho, algumas pessoas começam a puxar papo e eu, apenas por educação, dou prosseguimento. Mas eu não sei o que dizer, ou melhor: eu não quero dizer nada. Não acho, entretanto, que esses momentos nos tornem imbecis. O que conta é a sinceridade: se você está afim de contribuir, ótimo. Se não, paciência. Enquanto um ônibus inteiro grita, alguém tem que escutar, não é? Essa é a sua contribuição. Bottom line: imbecis são os que tentam contribuir com o que nada têm.

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