Paratodos

Nem sou tão velho assim para viver um pseudo-saudosismo, mas não é por senso comum que critico o carnaval de hoje, exaltando a beleza de outros carnavais. É que hoje vejo nascer na TV um carnaval até bastante grandioso, com festas que movimentam milhões de reais, milhões de pessoas. Ainda assim, suas músicas, danças e tradições aos poucos têm dado lugar a uma festa variada demais, é verdade, porém com uma heterogeneidade que pra mim não representa nada de positivo.

A música carnavalesca há muito deixou de ser algo bonito, sensível e educativo. É certo que o samba-enredo ainda não morreu, porém, alguns lugares do país estão dominados pelo axé baiano, com suas letras que vulgares e um tanto quanto vazia, exaltando a mulher como um eventual objeto de prazer, e expressões com conotação sexual brotam como vírgulas em letras que nem de longe deveriam ser ouvidas por crianças, mas esses ouvem, cantam e dançam a cada dia mais.

Se para Cartola “As rosas não falam/ Simplesmente as rosas exalam/ O perfume que roubam de ti”, hoje a onda é “chamar mainha pra dar uma puxadinha”, como diz um dos sucessos do grupo Guig Ghetto. Chico Buarque, Nara Leão, Caetano Veloso, Clara Nunes e Noel Rosa aos poucos são substituídos por grupos que aparecem em cada carnaval para enriquecer, e depois desaparecer em sua superficialidade. É por isso que Jorge Aragão há muito tempo já dava o recado “Respeite quem pôde chegar onde a gente chegou

E se a folia de momo e pra todo o povo, e se ainda vendem o Carnaval como festa popular, temos na excludente Bahia a prova de que algo está errado. Com uma população onde 80% têm ascendência negra, o Carnaval baiano ainda permite que haja tanto preconceito e discriminação. Afinal, só quem corre atrás do trio são os brancos e ricos, parcela ínfima da população, e o resto é preenchido com turistas que pagam uma fortuna para aparecer na TV e vender um branco do Carnaval, escondendo o lado negro.

É o verdadeiro “apartheid”. Do lado de dentro da corda estão os gringos, os cariocas, os paulistas e os brancos de diversos lugares, que pagaram até dois mil reais por um abada, pra se juntar aos “bons” e pular Carnaval. Do lado de fora da corda estão os pobres pretos, que conseguem dar um jeitinho brasileiro para participar da festa que eles próprios construíram, mas eles que estejam preparados para a repressão policial daqueles que querem, a todo custo, garantir a tranqüilidade dos que pagaram pra entrar.

E se o Carnaval de rua é assim, imaginem os desfiles de escolas de Samba em todo país. Dirigidas por empresários e bicheiros, essas escolas se utilizam da mão de obra barata dos apaixonados comunitários que em fevereiro vestem a camisa das suas agremiações e trabalham dia e noite para colocar o samba na avenida. Parte deles, porém, nem sequer tem o dinheiro pra comprar as fantasias, e mendigam espaço entre os turistas que preferiram o Rio, à Salvador. O Carnaval do Rio gera R$ 1bilhão por ano.

Este ano as Escolas de Samba de Manaus receberam 780 mil reais da Prefeitura para pagar custos dos desfiles, e reclamaram absurdamente da demora do repasse das verbas. Esse valor, que poderia ser empregado em operações tapa-buraco na cidade, seria desnecessário se os presidentes de Escolas de Samba não realizassem um trabalho de arrecadação durante o ano, com atividades que favorecessem a comunidade como um todo, e conseqüentemente gerando lucros para a escola.

Porem, conveniente para eles é cobrar o patrocínio da prefeitura e do governo do estado para realizarem o Carnaval. E depois, homenagear empresas e políticos na passarela do samba, que liberam outros milhões de reais para patrocinar tão honrada homenagem. Infelizmente pouco se vê desse dinheiro na qualidade dos desfiles, e aí nos perguntamos: “Pra onde vai tanto dinheiro?”. Pior que a desculpa para os patrocínios é sempre a mesma. “As escolas de Manaus ainda não podem fazer Carnaval sem a ajuda do Estado. Porém, nos quatro anos que acompanho essa briga nunca encontrei a resposta que queria: Quando é que algo vai ser feito para dar início a independência?

De tão crítico não posso ser injusto. O Brasil tem sim festas populares criadas pelo povo e continuam nas mãos do povo. Parte dos blocos de rua em Manaus, o frêvo de Olinda, e toda manifestação de diversidade cultural que conseguiu se manter frente a essa indústria que se transformou o carnaval no Brasil. Festas que ainda guardam a essência da cultura Brasileira, um tanto esquecida na mão de uns e outros. Como diz Chico em “Paratodos”. “O meu pai era paulista, meu avô, pernambucano, o meu bisavô, mineiro, meu tataravô, baiano. Vou na estrada há muitos anos. Sou um artista brasileiro”

Prefiro sim trocar o Carnaval dos milhões por essa riqueza cultural que construímos outrora. Se antes critiquei a heterogeneidade, eu a faço não porque quero unidade na cultura, mas qualidade na diversidade. E um pouco de justiça para aqueles que são a mola mestra do nosso país. Aqueles que pagam a folia do momo com 365 dias de trabalho duro. Que o Carnaval seja Paratodos. Quero ver a “Nata da malandragem que conheço de outros carnavais”. Será que Chico profetizou “…que aquela tal malandragem não existe mais”?

 

 

 

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5 comentários sobre “Paratodos

  1. Carine

    Me lembrou “Carnavais, malandros e heróis” do amigo Roberto DaMatta.

    Vc e suas analogias nos levando a pensar o contexto de forma singular! E só melhoram… =)

    =)

  2. Robinne Conte

    Andrés!
    Estás de parabéns pelo “Paratodos”. Realmente há uma distinção no carnaval. Uma festa realizada pela classe mais humilde, onde as pessoas mais “abastadas” vamos dizer assim, curtem, havendo discriminação e preconceito. Concordo plenamente com você!

    =]

  3. Michele Gouvêa

    Tá vendo tbm pq somos “pá furada” um sem o outro?! =D
    Parabéns pelo texto, pela reflexão e inquietação causados. Tanto foi feito com o carnaval brasileiro que ficaram pelo caminho sua essência, beleza e singulariedade momesca. Nossas rosas realmente já não falam, calaram-se muitos dos artistas e hj, apesar da beleza cênica e das alegorias grandiosas, a impressão q se tem é que pouco se tem do NOSSO CARNAVAL.
    Te amo!

  4. É mano…Ainda tem aqueles que não se conformam com as serpentinas e os confetes. Ficampor aí vagabundeando e trazendo coisas que nada tem a ver com carnaval. “Atrás do trio elétrixo só não vai quem já morreu” já dizia o Caetano…

  5. Eu acho legal aquelas pessoas, que não tem dinheiro pra nada, trancam a faculdade particular (ou deixam de investir em cursos pré-vestibular pra entrar na Federal) por falta de verbas mas que todo ano vão pra Salvador e pagam 150 reais pra ir nos Manaus Summer Fest e Bailes do Havaí da vida…
    E viva a inversão de prioridades
    hehe

    Esse blog é bem legal, parabéns.
    🙂

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