Confundiram “Quadrilha de Coari” com “Quadrilha de Gari”

Do O Malfazejo:

Confesso, vacilei. Não sei se por causa do cansaço de uma noite mal dormida (filho pequeno, você ainda terá um), as primeiras informações da manhã me assustaram. Depois de ouvir o horário político no rádio, ouvi o programa CBN Manaus. Na entrada do programa, os apresentadores diziam lamentar que “a corda sempre arrebente pro lado mais fraco”, e relatavam que oito funcionários da Prefeitura foram presos “EM FLAGRANTE” (tempere a expressão com ênfase a gosto) “destruindo patrimônio público”. Os oito garis foram presos enquanto retiravam placas do Governo do Estado, instaladas em local indevido.

Tendencioso que sou, me assustei. Afinal, com a ênfase dada pelos radialistas ao FLAGRANTE, volúvel e parcial que só eu, logo fiquei tentado a condenar o ato dos oito e a me decepcionar com a Prefeitura — sim, eu demoro mais a me decepcionar com ela do que muita gente boa da cidade.

A história contada no rádio era convincente. Não há argumentos contra um flagrante. Quem pode defender uma quadrilha de cabos eleitorais, empregados da Prefeitura, arrancando e destruindo placas das obras do Governo do Estado a mando de um prefeito que tenta se reeleger? Essa foi a imagem pintada na mente dos ouvintes, enquanto ouviam o relato horrorizado dos apresentadores. Fiquei triste e pensei: “Se for verdade, danou-se”. Uma decepção.

Baixei o volume do rádio e liguei o computador pra procurar notícias. O Holanda ainda não dizia nada. Eu ainda tentava conseguir alguma informação quando um rapaz que conheci na internet outro dia, o Sílvio, me perguntou, num programa de mensagens: “tá acompanhando a entrevista do safado de coari na cbn?”.

Não entendi mais nada. Aumentei novamente o volume.

O vice-prefeito de Coari, Rodrigo Alves, dava entrevista exclusiva à CBN, e falava da injustiça que sofreu com a prisão pela Polícia Federal. Rodrigo foi preso em 8 de julho, acusado de ser sócio de uma empresa envolvida na corrupção do município, e por atuar na destruição de provas dos crimes. Disse que não há qualquer registro contra ele nas denúncias. O apresentador Ronaldo, referindo-se às escutas feitas pela PF, disse que lera as 2 mil páginas “por alto”, e que realmente não encontrara referências a Rodrigo nas interceptações telefônicas. Rodrigo e o restante da “organização criminosa” (termo usado pela PF) foram soltos segunda-feira (18). Rodrigo disse que “não tem nada a ver com corrupção”, e que sua soltura “é um reconhecimento da Justiça” de sua inocência.

Ronaldo leu “por alto” o documento errado. Rodrigo esqueceu-se, também, da página 253 da denúncia final da Operação Vorax. Mas O Malfazejo, inteligente que é, foi atraído pela inteligência da CBN, e conta aos seus apresentadores e ao vice-prefeito de Coari o que segue na imagem abaixo:

As duas páginas seguintes da denúncia, 254 e 255, detalham cada uma das licitações em que a empresa de Rodrigo Alves está envolvida. Rodrigo tem todo o direito de ser ingênuo ou malandro, dizendo que sua soltura significa absolvição. Ronaldo e Marcos também têm todo o direito — e o dever — de serem cortezes, gentis e respeitosos (ainda que incisivos) com o rapaz e com qualquer outro entrevistado, afinal, leram “por alto” os documentos da Polícia Federal.

Por que conto isto? Porque quero contar o meu dia, passo a passo. É esta a essência de um blog, não?

Pois bem. Agora já me refazendo do baque de saber que havia uma suposta quadrilha sendo libertada e que havia outra sendo presa, começei a entender o que ocorria. Os funcionários da Prefeitura estavam fazendo um trabalho de rotina, e no mesmo dia (ontem, 19) retiraram outras placas de locais indevidos. Várias delas não eram do Governo do Estado — nem da Prefeitura de Coari. Quando retiravam a placa do Governo do Estado, instalada sem autorização, foram presos pela Delegacia de Capturas e Polícia Interestadual (Polinter) em flagrante. A acusação? Formação de quadrilha e depredação de bem público.

Segundo o jornal A Crítica, “questionado sobre o porquê de se formar uma quadrilha para roubar placas (que aparentemente não têm qualquer valor monetário), o delegado [Arthur Lyra] afirmou que apenas hoje informará o que motivou o suposto crime, cuja pena é de até três anos de detenção.” A foto ao lado é de Antônio Lima, de A Crítica, e capta de forma inequívoca o drama da placa do Governo do Estado, aparentente inteiraça por fora, mas certamente destruída por dentro.

Segundo a Polícia, a quadrilha dos garis era contumaz, reincidente. A destruição do bem público já vinha ocorrendo antes. Segundo Hiel Levy e Raul Zaidan , do Governo, relatos sobre o crime já datavam do dia 4 de agosto, quando a tal quadrilha teria roubado outra placa, do mesmo local, provavelmente para picá-la em mil pedacinhos e fazer vodu nos porões da Prefeitura. Então, diante de tão perturbadores relatos, o Governo, que não instalou nenhuma câmera para filmar certas reincidências no aeroporto de Coari, no iate Brisas ou na casa da juíza Ana Paula Braga, decidiu voltar suas câmeras para o caso do Terrível e Misterioso Ladrão de Placas do Governo.

E bingo! Prendeu os meliantes em flagrante.

Segundo Hiel e Zaidan, ninguém tem o costume de pedir autorização para colocar placas nas praças da cidade, nem a Prefeitura. Ainda segundo Hiel e Zaidan, seria a Secretaria de Desenvolvimento Urbano quem deveria retirar as placas indicativas de obras, e não outra secretaria municipal. Ainda segundo Hiel e Zaidan, o governador Eduardo Braga “não se envolveu em nenhum momento neste episódio […] ao contrário, determinou que a Defensoria Pública colocasse servidores à disposição dos funcionários municipais detidos, se estes não estivessem sendo assistidos por advogados”. Segundo Hiel e Zaidan, custa-lhes acreditar que o roubo das placas seja uma estratégia da Prefeitura para confundir a população sobre a autoria das obras do Governo em Manaus. Entendeu? Numa nota oficial cheia de ironias, o Governo do Estado afirma que o prefeito incitou os garis ao crime e insinuou que ele queria roubar os créditos por uma obra do governo.

Custa-me acreditar na contradição. O governador não interferiu em nada, mas ao mesmo tempo ofereceu advogados aos garis-bandidos? Custa-me acreditar que, numa cidade em que 13 pessoas foram assassinadas no último fim de semana, oito trabalhadores fardados tenham sido presos por formação de quadrilha por uma polícia que tem 8 mil prisões acumuladas para cumprir. Custa-me acreditar que os policiais não tenham percebido que os oito “bandidos” eram “laranjinhas”, cumprindo um dever que cumprem desde 2005, o de retirar placas instaladas em locais indevidos. Em 2007 foram 2 340 faixas retiradas, a maior parte particulares.

Há algo muito errado na legislação municipal, pois o crime dos bandidos da Prefeitura é previsto em lei.

A lei 674, de 4 de novembro de 2002, estabelece que placas publicitárias devem ter autorização da Prefeitura, exceto as placas de sítios, granjas, serviços de utilidade pública, hospitais, ambulatórios, pronto-socorros e, nos locais de construção, placas com nomes de engenheiros, arquitetos e firmas responsáveis pelo projeto. As placas eram publicitárias, portanto dependiam de autorização. Mas vamos imaginar que tivessem essa autorização, e que os garis da Semulsp tivessem errado ao retirá-las. Como pode tal ato ser tomado como depredação e formação de quadrilha?

Ah, sim, a lei 674 de 2002 é assinada por Alfredo Pereira Nascimento, então prefeito de Manaus, e Raul Zaidan, então Secretário-Chefe do Gabinete Civil. Hoje Alfredo é ministro dos Transportes e apóia Omar Aziz. Raul Zaidan é Chefe da Casa Civil do Estado do Amazonas.

Eduardo, como bem lembram Hiel e Zaidan, não é candidato — apesar de falar por Omar, responder por Omar, gritar por Omar, suar por Omar, defender Omar, pedir voto pra Omar e ligar para as casas das pessoas fazendo a campanha de Omar. Não, vamos dirimir possíveis confusões na cabeça do eleitor e concordar com Hiel e Zaidan: Eduardo não é candidato.

Mas tem candidato. Omar.

Disseram, a polícia e o Governo, que os garis formaram uma quadrilha e depredaram bem público. Foi o termo utilizado também pelos apresentadores da CBN. Segundo o noticiário, os funcionários municipais, seguindo ordens, destruíram patrimônio público. Pois bem, as placas furtadas estão inteiras e guardadas, e suas famílias podem ficar tranquilas, elas respiram bem e têm tomado os remédios de asma de que tanto precisam.

Imagine-se que Carlos Braga, de 52 anos de idade e há 27 anos, exatamente a metade da vida dedicada à Prefeitura, tenha recebido ordens para roubar uma obra do governo. Imagine-se que Luziney, Everaldo, Francisco, Marciane, Francisco, Jocivam e José, varredores de rua, tenham recebido ordens de Carlos Braga para roubar uma placa de uma praça, vestidos com fardas da Prefeitura e com seus crachás pendurados nos pescoços.

Mas que espécie de bandido é essa, que usa crachá e farda?

Portanto, imagine-se que os oito garis formaram uma quadrilha para “fazer o mal” com as inocentes placas do Governo. Bom, pela incompetência no ramo, só podem ser bandidos da Prefeitura de Manaus, mesmo. Talvez fosse o caso de a bandidagem da capital ir tomar umas aulas com quem entende do ramo, a 363km de Manaus, certo?

Chega de carnaval. Ainda que o Holanda tenha visto os oito garis como “peças descartáveis de um jogo de poder” entre o prefeito e o governador, o que se viu foi apenas um grupo de trabalhadores sendo preso e acusado formalmente por formação de quadrilha e depredação de bem público.

O prefeito, que foi à delegacia assim que soube do ocorrido, acertou ao visitar os presos. E errou, ao personificar a ação da Polinter em Eduardo Braga, falando em autoritarismo. Aliás, neste ponto erram o prefeito e o blogueiro Holanda, que fala em “estado de exceção”, até porque, novamente segundo a nota oficial de Hiel e Zaidan, “a fase das ameaças a profissionais de imprensa no Amazonas ficou no passado”.

Sim, isto está lá, na nota oficial, junto à cutucada em Arthur Neto sobre “o espancamento de pessoas humildes”. Não se pode, realmente, acusar Hiel e Zaidan de fazerem ironias primárias. Não, são ironias elaboradas, refinadas. Defender o Governo pelo fato de prender oito garis e chamá-los que “quadrilha” e no mesmo documento acusar outra pessoa de bater em pobre é ou não é o estado-da-arte da ironia?

Segundo o policial responsável, o Governo descobrira que estavam roubando suas placas, e então a polícia decidiu montar campana e deixar a isca (uma placa novinha e suculenta) para os patifes. Depois do flagrante conseguido, a polícia não podia deixar barato, segundo o mesmo policial, que usou uma expressão chula e informal para ilustrar o que lhe aconteceria ao trato intestinal final, caso liberasse os bandidos.

É bom repetir: nada a ver com o governador. Afinal, segundo Hiel e Zaidan, ele não se envolveu no episódio.

Eduardo é um caso a ser estudado pela ciência.

Nunca se viu tanto, nunca se ouviu tanto, nunca se atendeu tanto ao telefone um homem que não se envolve com uma eleição.

Ah, sim! Rodrigo Alves, aquele que foi entrevistado pela CBN, passou a noite em casa, com a família.

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3 comentários sobre “Confundiram “Quadrilha de Coari” com “Quadrilha de Gari”

  1. Diego

    Brilhante texto. Esse episódio ilustra bem essa nova fase de ataques entre as forças políticas do Estado. Daqui a pouco, é bem provável que um dos PMs que protegem a casa do pai do governador Eduardo Braga, dia e noite, sejam presos em flagrante por urinarem perto de uma placa publicitária indevidamente instalada.

    O orgulho maior fica por conta da atuação do sr. Hiel Levy, um verdadeiro exemplo para o jornalismo amazonense.

    Ih, rapaz, eu sei fazer ironia também. Posso trabalhar no Governo do Estado?

  2. Anônimo

    Seria interessante este blog verificar o padrão de vida do delegado que prendeu estes pobres funcionários da prefeitura, em flagrante abuso de autoridade. Parece que o seu salário não paga seu carro, suas roupas e sua casa. Dizem que é de uma família rica ou que a mulher é rica, apesar de traí-la de vez em quando e depois despedir a trouxa da amante, que serve de prostituta gratuita. Seja como for, delegado rico é coisa que não se explica pela via do trabalho honesto apenas. Tem um extra por fora, seja porque mama de alguém da família ou de fora da família.

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