Outra História

Os Kombeiros de Manaus estão tentando entender, até agora, o que fez Amazonino Mendes mudar de idéia em relação à legalização do transporte prometido em campanha. Em troca, é claro, de alguns servicinhos de transporte no dia da eleição.

Pra tirar essa dúvida a bambambam da categoria, Suely da Kombi-Lotação peitou o vice prefeito Carlos Souza (tio do Rafa) e o questionou sobre a mudança de comportamento. A resposta, porém, não agradou muito a nobre senhora:

“Estávamos em campanha, lá era diferente. Agora é outra história. Não vamos legalizar. Aliás, está proibido”

Revoltados com a falta de palavra, kombeiros da zona Norte fizeram uma manifestação da Estrada da Cidade Nova, parando as duas vias em frente ao Manôa. As hostilidades contra Amazonino “Prometendo” Mendes nem de longe pareciam com aquela rasgação de seda de outubro passado.

Segue abaixo o diálogo travado entre um kombeiro e um vendedor de picolé:

Kombeiro: Esse Amazonino não ganha mais nem pra vereador. Essa é a pior administração da história dele. Não podemos mais deixar ele ganhar nada.

Picolezeiro: A gente não poderia era deixar ele voltar, e ele voltou. Agora Manaus que pague por isso

Kombeiro: Pois é, e eu votei nele (cabisbaixo).

Picolezeiro: Votou, carregou eleitor pro cara, pediu voto, acreditou nas promessas dele e foi enganado. (com um sorriso malicioso, apesar dos poucos dentes).

Kombeiro: Ah, e o senhor vai me dizer que não fez isso também? Que não votou nele?

Picolezeiro: Eu não! Não sou idiota.

Depois da resposta o kombeiro recebeu uma suposta ligação no celular, se distanciou do isopor do piclé. Só desligou o celular depois que entrou na kombi pra ir embora. Nem pôde ouvir a última do picolezeiro:

“Já vai, meu filho? Fique assim não. Toma um picolézinho da massa pra alegrar teu dia”.

Afinal, Poupar ou não poupar?

O presidente da república, Luís Inácio “Lula” da Silva, deixou poupadores e economistas de orelha em pé ao apresentar mudanças no cálculo de rendimento da poupança. Ainda que haja um compromisso do governo de não prejudicar a população, qualquer alteração faz com que o cidadão com um pouco mais de vivência se lembre do confisco às poupanças efetuado pela dupla mais odiada por aposentados do país, Collor e Zélia.

Mas o leitor do Agridoce pode ficar despreocupado, pois economistas garantem que as mudanças não trarão conseqüências catastróficas. Pelo contrário, ela chega na hora certa para evitar que o sistema tenha um colapso. Isso porque, a poupança foi criada para pequenos e médios poupadores, já que é livre de tributos e possui risco zero. Só que nos últimos anos essa facilidade atraiu grandes investidores para as poupanças.

Foi aí que nasceu o problema, já que o governo pode ficar sem dinheiro para pagar todos os poupadores, o que irá penalizar os mais pobres. Para evitar isso, o governo passará a cobrar imposto de renda dos clientes com mais de R$ 50 mil, e reduzir seus rendimentos, medida apoiada pelo economista Francisco Assis Mourão. “Diminuindo os benefícios, o governo deverá inibir grandes investidores e controlar o excesso causado por eles”.

Dessa forma, os pequenos poupadores não sentirão efeito algum, mas poderão se sentir mais seguros na poupança, que foi criada para eles. Já os magnatas devem voltar a investir suas fortunas em fundos de investimento, que é o lugar deles. Para Mourão, se a estratégia não der certo, e os investidores continuarem procurando a poupança para fugir do Imposto de Renda e das taxas de manutenção, o sistema poderá quebrar.

Corroborando com essa idéia, o economista Rodemarck Castelo Branco defende que essas alterações sejam feitas imediatamente. “Os mais pobres tem que ter atrativo para continuar na poupança, e os grandes investidores que migraram dos fundos de investimento devem ser punidos com a redução desse rendimento. Agora, essa estratégia pode custar um alto preço político para Lula, afetando resultados nas próximas eleições”.

Não é pra menos, Lula vai mexer com a grana da influente classe média, Além disso, questionou-se bastante o momento em que o governo escolheu para fazer essas mudanças, já que estamos no meio de uma crise econômica. Mas o economista e presidente da Ciclo Consultoria, José Laredo, acredita que as mudanças estão diretamente relacionadas ao momento financeiro do país.

“Com o momento delicado em que a economia vive o Banco Central foi obrigado a diminuir os juros da taxa Selic. Isso influenciou investimentos como o CDB, que perdeu rendimento e, até o final do ano, poderá render menos do que a poupança”, explica. Na continuação do ciclo, o baixo rendimento assustará os investidores do CDB, que migrarão adivinha pra onde? Sim, as poupanças no Brasil. Que já começaram a inchar, gerando mais dinheiro para os bancos.

“Aí é que está o problema, pois a lei definiu que esses fundos devem ser investidos exclusivamente em projetos de habitação. Como tem cada vez mais dinheiro, o governo não consegue encontrar destinação para tudo, e boa parte fica parada, sem aplicação”. Neste caso, o economista defende que outros setores também devem se beneficiar com o fundo. Com isso, o economista acredita que Lula deve propor uma nova política de utilização da poupança, também baseada nas limitações.

Cautela

A oficial de cozinha, Maria das Dores Costa, de 53 anos, tem um forte motivo para temer as mudanças. Há 19 anos ela perdeu todo o dinheiro da poupança com a medida adotada por Collor e pela ministra da Fazenda, Zélia Cardoso. “Perdi cerca de 200 cruzeiros que pretendia investir na ampliação do comércio que eu tinha. O estrago só não foi maior porque eu já havia tirado boa parte do dinheiro para dar entrada em uma casa”. Isso”.

Se sentindo ludibriada, Maria das Dores perdeu boa parte da confiança que tinha nas instituições financeiras e governamentais. Apesar disso, acha difícil que algo tão trágico aconteça novamente. “Sinto mais segura agora, pois a economia do país parece estar mais segura também. De qualquer forma, é melhor ficar alerta e tomar cuidado”, conclui a esperançosa, porém cautelosa, oficial de cozinha.

Portanto, as mudanças não deverão trazer conseqüências graves para a população, e de acordo com os especialistas, até vale a pena acreditar na boa vontade do governo Lula. Para o amigo leitor que tem uns trocadinhos na poupança, pode ficar calmo e esqueça a idéia de guardar a grana debaixo do colchão, pois confiscos estão fora de cogitação. Mas àqueles que estão com os cofres cheios, é melhor correr. É isso que quer o governo.

O Convincente

Me surpreendo  todos os dias com o poder de persuasão do prefeito Amazonino Mendes. Mesmo quando ele não diz o que as pessoas querem ouvir, elas ouvem dele a promessa mais agradável.

Após reunião com estudantes para tratar sobre meia passagem, o Negão foi aplaudido e deixou todo mundo satisfeito mesmo quando disse que não voltaria atrás em relação a redução. Nossas brilhantes lideranças estudantis estão crentes que ele disse o contrário, e tomará a melhor decisão.

No começo do seu governo aconteceu algo bem parecido. Depois de fazer mudanças absurdas no trânsito do centro da cidade, os empresários do comércio solicitaram que o nobre prefeito revesse as mudanças. Mas em reunião na CDLM ele disse que não mudaria, e não o fez. Ainda assim empresários sairam satisfeitos, chamando o Negão de Estadista que ouve a necessidade do povo.

Velha Nova Juventude

Manaus virou um caos da noite pro dia, com a atitude da Câmara do Vereadores de restringir de 120 para 44 o número de passes estudantis disponíveis por mês. Manifestações surgem inesperadamente em diversos locais da cidade, demostrando que a classe ainda tem um belo poder de mobilização.

Quero deixar claro que a palavra “caos” é usada com uma pequena dose de sarcasmo, pois sou completamente a favor de atos populares como esse, principalmente por uma causa tão importante. O que me preocupa, porém, é que os estudantes manauaras só estão correndo atrás do prejuízo, tentando sarar dos ataques que se deixou sofrer.

Digo isso com uma certa propriedade, pois noséculo passado fui presidente da União Municipal dos Estudantes Secundaristas (UMES), e à frente da entidade tivemos que enfrentar os mesmos problemas vividos hoje. Aliás, é bom que fique claro; prefeitura e empresários tentam, há décadas, tirar da gente um direito conquistado por meus precursores.

Sempre que entrava o ano, o prefeito da vez, aliado à quadrilha de empresários, convencia a CMM a votar uma lei restringindo o número de passes e os dias e horários de utilização, como fizeram agora. A estratégia de pegar os secundaristas de férias não adiantava, pois a UFAM sempre foi parceira na luta e a sociedade apoiava nossos atos.

Colocávamos carro de som em frente à Prefeitura a Câmara pra fazer barulho. Invadíamos sessões e cobrávamos o passo atrás que vinha no fim do dia. Hoje não se vê mais isso. Um amigo meu bem radical diz até que estudante de hoje não joga mais nenhuma pedrinha em ônibus. Não sou a favor de depredações, mas sim de medidas enérgicas.

O que vejo hoje são centenas de entidades que dizem representar os estudantes, uma pra cada concepção política. Elas imprimem tudo que existe de mais atrasado na política. Batem palma pra políticos corruptos, ou se calam por um carguinho aqui e outro alí. O interesse dos dirigentes, há muito, se sobrepôs à vontade coletiva.

Acabei de descobrir que o prefeito vestiu a manta do populista e voltou atrás na decisão, garantindo os 120 passes. Beleza. Pena que ele foi ovacionado pelos estudantes como salvador da pátria. Esqueceram que dele o comando desse grupo político, que foi dele a idéia de reduzir a meia passagem, diminuir as verbas da educação, acabar com o Prosed…

Se confirmada a decisão, parabéns para os estudantes que se revoltaram desde o início e lutaram contra. E fica o apelo para que estejamos mais atentos aos ataques, que não irão cessar. Vamos desmascarar as falsas lideranças. Esses estudantes de 50 anos que vivem engravatados e frequentam casas e festas de políticos.

Tenho medo da influência dessas pessoas na nossa sociedade, mas tenho ainda mais medo de que algo faça com que nossa juventude perca a capacidade de se indignar. Tenho 24 anos e ainda sou estudante. Não fui às ruas desta vez, mas tento fazer minha parte de alguma forma. No dia em que tiver filhos, espero  o mesmo espírito de luta, mas por novos ideais.