Babel

Voltei a assistir Babel neste fim de semana, e lembrei porque esse filme me encantou tanto. Então resolvi resgatar uma crítica que fiz na época da faculdade, destacando inclusíve os dois outros filmes da trilogia de Inarritú.

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Babel, de Alejandro González Iñárritu

Babel cumpre bem o papel de fechar uma trilogia de qualidade. Seguindo a mesma formula dos outros dois filmes da seqüência (Amores Brutos e 21 gramas), Alejandro Gonzalez Inarritu narra eventos com cenários diferentes e personagens distintos, que aparentemente não possuem ligação nenhuma, mas que vão se entrelaçando com o desenrolar da história.

Se em Amores Brutos Iñarritu expõe de forma absurdamente talentosa a cultura latina e urbana do México, e se esse objetivo  também é conquistado em 21 Gramas, onde os conflitos psicológicos dos personagens expõe a fragilidade de estadunidenses , em Babel tudo se amplia. Quatro países ajudam a contar a história do filme, com uma pesada carga cultural e muita denuncia de intolerância e preconceito, um entre o outro.

Tudo começa no Marrocos, onde um criador de cabras entrega aos filhos uma arma para matar chacais. A arma passa a ser o elo que relacionará todos os outros núcleos da trama. É com ela que um dos garotos, Yussef (Boubker Ait El Caid), inocente e estupidamente dá um tiro em um ônibus de turismo, acertando uma americana.

Esta é Susan Jones (Cate Blachett), que, ao lado do marido Richard Jones (Brad Pitt), estão em viagem ao Marrocos a fim de restabelecer a um casamento prejudicado pela morte prematura de um de seus filhos. A viagem, até então pouco proveitosa em seu real objetivo, dá uma guinada capaz de mudar os rumos da história.

Enquanto isso, nos Estados Unidos, os dois outros filhos do casal passam essa temporada com a babá mexicana Amélia (Adriana Bazarra), que perde a oportunidade de ir ao casamento do filho no México por conta dos acontecimentos em Marrocos, e resolve levar as crianças consigo para a festa. Após a grande experiência cultural, a volta pra casa se torna um pesadelo para ambos.

Em outro pico da trama está Chieko Wataya (Kana Harada), uma adolescente japonesa surda, órfã de mãe e que vive em conflito com o pai Yasujiro Wataya (Kôji Yakusho). Atolada de complexos de inferioridade e influências da cultura teen japonesa, Chieko faz de seu trauma e doença um instrumento limitador durante suas frustradas tentativas de iniciar a vida sexual. Sua história é quase um novo filme, mas longe de ser dispensável. Os conflitos psicológicos criados por Iñarritu, tão bem dispostos em 21 Gramas, pouco são explorados em Babel, com exceção desse núcleo. Porém, sua ligação com a história é através de seu pai, antigo dono da arma.

Utilizando a técnica de uma narrativa cronologicamente desordenada, e a sensibilidade que lhe é peculiar, Iñarritu recheia o filme de cenas memoráveis, que destacam o objetivo do filme. O pavor passado pelas crianças americanas ao assistirem o estrangulamento de uma galinha, executado naturalmente por Santiago (Gael Garcia Bernal), o prazer do menino Yussef ao ver sua própria irmã nua, Zohra (Wahiba Sahm), e a truculência e preconceito dos policiais americanos e marroquinos são importantes para entender a cultura dos núcleos.

O perturbador silêncio destacado na cena em que Chieko entra em uma danceteria, ou que passa na frente de uma banda de rock e sem mantém inabalável nos faz quase sentir o incomodo de não poder ouvir. A cena em que Amélia e Santiago estão retornando aos Estados Unidos e são parados na fronteira nos desperta uma incômoda ira contra os policiais americanos, descaradamente cheios de preconceito. Momentos em que a interatividade entre filme e expectador é ricamente explorada pelo diretor.

Um destaque também para grandiosidade que um incidente, até então isolado, chegou a tomar. A facilidade com que os EUA conseguem transformar fatos em grandiosos conflitos mundiais (como os que vieram com a “luta contra o terror” no Afeganistão). Os eternos juízes do mundo se sentem novamente machucados, e estão prontos para revidar.

A beleza de Babel está destacada em todo lugar desse filme. Seja nas atuações impecáveis dos atores amadores juvenis do Marrocos, na capacidade de nos envolver na trama através de conflitos que, apesar de distantes geograficamente, são posto a prova todos os dias em nossas vidas. Babel é o retrato da globalização, na visão daqueles que estão globalizados, e daqueles que não estão.

Guia Agridoce Manaus 2.0

Ele voltou, minha gente. O famigerado, o terror das biroscas, dos lanches careiros e dos péssimos atendentes. Depois de um momento de reflexão e extensa pesquisa gastronômica, trazemos até vocês mais alguns estabelcimentos condenados pelo bom gosto do editor.

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Fu Wend: Na entrada, um portal oriental indica que naquele lugar existe um restaurante especializado em comida japonesa. Lêdo engano, meus amigos. O cardápio possui uma ou outra comida oriental, e se optar por uma delas, não se assuste com o péssimo gosto da comida e um tempero nada parecido com o que é utilizado no outro lado do mundo. Por isso é tão baratinho. (Campos Elíseos)

Labib´s: Seguindo a linha dos restaurantes temáticos, este de comida árabe também deixa um pouco a desejar. A esfirra aberta, não tenha dúvidas, é a melhor da cidade. Mas o atendimento é péssimo. Se resolver pedir pelo delivery, amigo, não tenha pressa alguma. Eu mesmo já esperei mais de uma hora. Agradeço ao Lennon por me lembrar deste detalhe. (Parque das Laranjeiras)

Panificadora Elisa: Quem não gosta de um lanchinho de padaria. Salgados quentinhos e bem baratos? Baratos? Nesta panificadora tudo parece ser recheado com ouro. O Rafael Dantas tinha me indicado esta, falando de um tal salgado de R$ 3. Não achei este salgado. Só um outro de R$ 3, 50 e um que custava absurdos R$ 4. É bom, mas não vale.  (Rua Paraíba)

Lanche Carvalho Leal: A Ana Paula me confirmou o nome do lanche, e posto aqui pra voês. Ele fica localizado em frente a Escola Estadual Carvalho Leal. Além da pouca criatividade, o sanduíche tem um gosto inexplicável de sabão. Pra piorar, as condições de higiene dos chapeiros deixa qualquer um com náuses. (Cachoeirinha)

Lanche Papa Léguas: É com muito pesar que coloco este estabelecimento nesta lista, mas tenho que ser profissional. Tem um sanduíche bom, o atendimento é legal, a maionese com orégano é uma delícia. Quase irretocável. Mas nos últimos meses os atendentes pegaram a mania de errar o troco. Foram quatro ou cinco vezes, e já está me parecendo má fé. (Praça 14)

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É isto, meus amigos. Esta edição do Guia Agridoce Manaus fica por aqui. Agradeço as sugestões e peço que enviem mais, pois procurarei cada lugar para conferir. Quem quiser saber ou relembrar os estabelecimentos escolhidos na primeira edição, aí vai o link: Guia Agridoce Manaus 1.0

Grande Abraço

Poder de Comp´a

Sentei na sala de espera do médico pra fazer os exames. Um garotinho, de uns quatro anos, está ao meu lado, cantando baixinho uma música quase indecifrável. Depois de uns cinco minutos ele vira pra mim e fala:

Ele:
Tenho super reais.

Eu: Super reais? Que legal (O que seria super reais?)

Ele: É. Meu pai que me deu. É muito, é?

Eu: Não sei. Posso ver? (Juro que não pensei em roubar o menino)

Ele: (O menino puxa uma nota do bolso, e tenta desamassa-la inutilmente. Pela cor lilás logo entendi do que se tratava)

Eu: Ah ta, cinco reais.

Ele: É. Super cinco reais. Dá “pá” “compar” um avião de “contole” remoto? (Ele tinha um sério problema com a letra “R” no meio das palavras. Eu também tinha)

Eu: Acho que não. Aviãozinho é muito caro.

Ele: “Doga” (com uma carinha decepcionada) E um “cainho” de “contole” remoto?

Eu:
Também não. É muito caro. (Cheio de dedos pra não decepciona-lo mais)

Ele: “Doga”. Papai disse que dá “pa” “compar” um monte de coisa.

Pensei em dizer que o pai dele era um mentiroso. Que cinco reais valia muito pouco, ultimamente. Que a cesta básica de Manaus é a 5ª mais cara do país, e que a inflação, ainda que discretamente, já dava o ar da graça no país. Pensei em lembrar que a mesma crise que quebrou banco nos EUA demitiu milhares de pessoas em Manaus, e deixou fábricas desesperadas…Mas olhei pra ele, com aquele ar tão inocente, com a blusa meio rasgadinha e um calção desbotado que denunciava a origem humilde do menino. Decidi pormenorizar.

Eu: Mas dá pra comprar uma bola. Você gosta de futebol? (Lembrei daquelas bolas dente de leite, que a gente comprava nas tabernas pra jogar futebol. Parecia mais um balão, e não durava um dia inteiro. Mas na hora da diversão, quebrava maior galho)

Ele: Eu gosto (Disse com os olhos brilhando.) Vou pedir “pa” mamãe “compar” (Quase chorei)

Eu: Pede uma dente de leite (Aliviando pro lado da mãe do menino, que não deve estar disposta a completar a diferença monetária de uma bola oficial)

Ele: É boa?

Eu: Claro, das melhores que tem (que Deus me perdoe).

Com um sorriso de lua nova no rosto, ele continuou o papo. Conversamos pormenores até a mãe dele sair do consultório.

Ele: Mãe, mãe. “Queo” “compar” uma bola com meu super reais (disse em êxtase). Antes de ir embora ele vira pra mim e diz: “Obigado”, amiguinho.

Eu: Tchau, “gaotinho” (com os olhos “maejados”)