Poder de Comp´a

Sentei na sala de espera do médico pra fazer os exames. Um garotinho, de uns quatro anos, está ao meu lado, cantando baixinho uma música quase indecifrável. Depois de uns cinco minutos ele vira pra mim e fala:

Ele:
Tenho super reais.

Eu: Super reais? Que legal (O que seria super reais?)

Ele: É. Meu pai que me deu. É muito, é?

Eu: Não sei. Posso ver? (Juro que não pensei em roubar o menino)

Ele: (O menino puxa uma nota do bolso, e tenta desamassa-la inutilmente. Pela cor lilás logo entendi do que se tratava)

Eu: Ah ta, cinco reais.

Ele: É. Super cinco reais. Dá “pá” “compar” um avião de “contole” remoto? (Ele tinha um sério problema com a letra “R” no meio das palavras. Eu também tinha)

Eu: Acho que não. Aviãozinho é muito caro.

Ele: “Doga” (com uma carinha decepcionada) E um “cainho” de “contole” remoto?

Eu:
Também não. É muito caro. (Cheio de dedos pra não decepciona-lo mais)

Ele: “Doga”. Papai disse que dá “pa” “compar” um monte de coisa.

Pensei em dizer que o pai dele era um mentiroso. Que cinco reais valia muito pouco, ultimamente. Que a cesta básica de Manaus é a 5ª mais cara do país, e que a inflação, ainda que discretamente, já dava o ar da graça no país. Pensei em lembrar que a mesma crise que quebrou banco nos EUA demitiu milhares de pessoas em Manaus, e deixou fábricas desesperadas…Mas olhei pra ele, com aquele ar tão inocente, com a blusa meio rasgadinha e um calção desbotado que denunciava a origem humilde do menino. Decidi pormenorizar.

Eu: Mas dá pra comprar uma bola. Você gosta de futebol? (Lembrei daquelas bolas dente de leite, que a gente comprava nas tabernas pra jogar futebol. Parecia mais um balão, e não durava um dia inteiro. Mas na hora da diversão, quebrava maior galho)

Ele: Eu gosto (Disse com os olhos brilhando.) Vou pedir “pa” mamãe “compar” (Quase chorei)

Eu: Pede uma dente de leite (Aliviando pro lado da mãe do menino, que não deve estar disposta a completar a diferença monetária de uma bola oficial)

Ele: É boa?

Eu: Claro, das melhores que tem (que Deus me perdoe).

Com um sorriso de lua nova no rosto, ele continuou o papo. Conversamos pormenores até a mãe dele sair do consultório.

Ele: Mãe, mãe. “Queo” “compar” uma bola com meu super reais (disse em êxtase). Antes de ir embora ele vira pra mim e diz: “Obigado”, amiguinho.

Eu: Tchau, “gaotinho” (com os olhos “maejados”)

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2 comentários sobre “Poder de Comp´a

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