É que o nosso empresário é bom

Há duas semanas eu ví em um dos quiosques do aeroporto uma caixinha de madeira bem bonita, onde havia um desenho da Arena da Amazônia na tampa. Hoje também descobri que Manaus já ganhou uma placa de trânsito indicando a localização do estádio que será construído para a copa de 2014. Por enquanto a colossal arena nem está perto de existir, mas o turista já pode comprar souvenir do lugar e imaginar que ela está lá.

Infelizmente o nosso Estado tem essa capacidade absurda de vender o que não existe. De chamar atenção por coisas boas e grandiosas que não passam de ilusão. Nem vou entrar na polêmica discussão sobre a viabilidade de uma Copa do Mundo em Manaus, mas me sinto constrangido em ver que o Amazonas se vangloria por ter o estádio mais belo do Brasil, mesmo sabendo que ele ainda não passa da imaginação de meia dúzia.

Mas estes orgulhos tortos não começam aí. São de muito tempo, aliás. Manaus já teve o melhor prefeito do país (por duas vezes) sem que a população concordasse com isso de verdade. O Brasil já caiu no conto dos nossos “empresários”, e comprou um ministro dos transportes que deixou em desgraça o transporte público manauara. Como entender enganos dessa proporção? Sim, sabemos vender muito bem.

Recentemente a capital do “Extresso” ganhou um prêmio nacional por ser um dos melhores transportes públicos do país. A galera no T2 vaiou em peso. Ora, amigo leitor, nem precisa andar de ônibus pra saber da distância que estamos deste título. Veículos sucateados, sistema em crise, tarifa alta, greves…e eu me pergunto: “O que foi que eles viram aqui?”

Mas, pensando bem, esse engano é até explicável. Já que a “elite” sulista do país imagina Manaus como uma grande floresta habitada unicamente por índios selvagens que fogem de onças em suas canoas, saber que os “primeiros” ônibus começam a funcionar no meio da mata é de causar admiração. “Eles estão planejando um monotrilho? Nossa. Dá logo esse prêmio pra eles”.

Aliás, essa visão estereotipada do Amazonas também é responsabilidade nossa. Nem adianta culpar o Globo Repórter. Nossos “empresários” adoram divulgar o Estado como uma grande floresta verde, selvagem e isolada (sem falar da famosa sustentabilidade). Destacando o amazonense como o povo marginal que precisa viver sem as maravilhosas inovações encontradas apenas no sul do país. E isso vende, amigo. Como vende.

Mal eles sabem que é das mãos deste povo selvagem que surge boa parte destas inovações. Pelo menos disso podemos nos orgulhar. Aliás, já passou da hora de esquecermos o ilusório e passarmos a exaltar o que é bom de verdade: O povo amazonense, que só ta precisando de um pouquinho de auto-estima para começar a se valorizar e construir um futuro melhor e mais palpável.

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11 comentários sobre “É que o nosso empresário é bom

  1. Mneius Melo

    Muito bom Andrés! muito bom!!Parabéns…Sim o melhor de nós, somos nós mesmos. E enquanto não soubermos disso por completo, seremos sempre esses estranhos e exóticos seres q vivem no idílico mundo verde…paraiso intocado e santuário perdido…esquecido pelo Brasil q dorme e acorda de cara para o Atlântico…

  2. Martha

    Acho que o maior problema também é o povo amazonense e sua insistente inércia. Nossos empresários são ótimos em vender gato por lebre e nós somos excelentes em comprar, sem reclamar, gato por lebre.

  3. Vender, vender, vender… Sabemos vender. É verdade. A Marechal Deodoro é um bom exemplo disso. Mas, concordo também que precisamos aprender a produzir para concumo interno e externo, e principalmente, precisamos aprender a cobrar dos nossos representantes legais o bom andamento da coisa pública. Só assim, quem sabe, passaremos a vender o que de fato existe.
    Parabéns amigo, pelo artigo..

  4. Keyty

    Vende mais aquilo que não existe, de fato. Vende mais se for inovador. Vende mais se for dos pobres nortistas que vivem no meio do pulmão do mundo. E aqui nessa terra baré, o ilusório se vende mais e se conquista mais votos.
    Texto muito sábio.

  5. Se todo esse empenho em vender o que nao existe fosse concentrado na divulgação do que temos de melhor aqui, nao seríamos visto apenas como seres exóticos e isolados do mundo e sim como pessoas competitivas. Vc tem razão..enquanto essa imagem de floresta intocável render lucros, vai ser difícil de ser mudada, mas nao impossível…

  6. Beth

    Infelizmente, enquanto essa imagem de floresta intocável render lucros, vai ser difícil ultapassar essa barreira de interesses e divulgar a nossa realidade. Mas, nao impossível..

  7. adriana mannarino

    O maior problema do Manauara é a falta de informação. Vá na visitação da obra da Arena qualquer último sábado do mês e veja com seus próprios olhos o andamento da construção da Arena.
    A maquete que você viu está rodando museus no mundo todo desde de que ela foi concebida em 2009, pois sua arquitetura é considerada uma grande obra de arte.

    Meter ferro todo mundo mete. Sacrificar finais de semana, ficar no escritório ( emprestado) da copa com 11 pessoas extremamente competentes muitas vezes até 22h durante a semana, sem ganhar hora extra por puro amor a causa e esperança em ajudar a cidade de alguma forma – com um salário nada grandioso incorrendo em um custo de oportunidade elevadíssimo, não é para qualquer um. Não, a UGPCOPA não é cabide de emprego. E existem pessoas realmente trabalhando para que a Copa não seja limitada aos interesses da FIFA.

    A Copa é uma oportunidade maravilhosa para melhorarmos o turismo vergonhoso da cidade, assim como ajudarmos o setor primário a produzir e entregar seus produtos com qualidade e o mínimo de dignidade para o agricultor. Além de nos permitir fazer melhorias viárias jamais cogitadas ou viáveis sem os recursos do PAC mobilidade urbana, disponíveis somente para as cidades-sedes. O mundo inteiro está olhando para nós. ONGS e Empresas privadas estão em busca de bons projetos para investir no Amazonas e ter repercussão mundial. Parece que o mundo acordou e enxerga o potencial do evento e suas implicações, mas a população do Brasil ainda não.

    Se não soubermos transformar os investimentos em legado, e em inversões em capital humano, nossa Copa será realmente um fracasso financeiro e social. E sem o apoio de cada cidadão, sem pessoas como você acreditando, 11 pessoas não são super pessoas. O governo não pode fazer a Copa sem a iniciativa privada, e sem os manauaras.

    Se houver desvios, critique, denuncie, proteste. Se não puder contribuir com idéias, projetos e soluções, não atrapalhe o processo….

    Qualquer sugestão, projeto ou dúvida : grupocopa@ugpcopa.am.gov.br

    Boa noite

    RESPOSTA DO BLOGUEIRO

    Adriana,

    Acabei de reler meu texto para ter certeza de que não havia escrito alguma bobagem das constatadas por você aqui no comentário, e percebi que não. Em nenhum momento disse que o estádio é uma farsa, ou que as obras não estão acontecendo. Em nenhum momento chamei a UGP-Copa de cabide de emprego ou algo do tipo. Essas coisas foi você quem trouxe para a discussão.

    Sinceramente, não sou contra a Copa. Acredito que ela pode ser uma oportunidade única para resolver problemas existentes há anos na cidade. Sou intusiasta da Copa, principalmente pelo aspecto social, que você defendeu no comentário. Nesse debate, inclusive, acho até que a Arena é o menor dos benefícios. Torço mais por uma intervenção no sistema viário da capital, ou no investimento em turismo e formação profissional da nossa gente.

    Infelizmente, destas coisas, a Arena é a única coisa que realmente está andando. Prefeitura e Governo não se entendem sobre a integração entre Monotrilho e BRT. Camelôs continuam nas ruas do Centro. Realmente, nunca fui visitar a obra da Arena. Confesso até que tenho vontade. Mas procuro saber de tudo o que acontece, porque é essencial para a minha profissão. Procuro ser ético e não dou pitaco no que não conheço, contrariando o modelo de Manauara que você descreve.

    No meu texto apenas falei da necessidade que temos de criar expectativa de coisas que não existem, ou ainda não saíram do papel. Usei a Arena como exemplo porque ví a caixinha no aeroporto, que deve ter sido posto a venda por algum empresário espertão. Comentei sobre a placa que a prefeitura colocou indicando a Arena, como se o turista pudesse dirigir até lá a qualquer momento para conhecer o nosso belo estádio da Copa.

    Torço para que dê certo, de verdade. Torço para que a Arena saia, e o investimento da iniciativa privada, também citado por você, aconteça. Como manauara e amazonense, não faço questão nenhuma de ver minha terra passando vergonha mundial. E quero, com certeza, que encontremos uma utilização para a Arena depois da Copa. Afinal, nós, os amazonenses (alguns que nunca visitarão a Arena na vida), é que iremos pagar cada centavo desse estádio. E será bem caro.

    1. adriana mannarino

      Quanto à Arena..” Nem vou entrar na polêmica discussão sobre a viabilidade de uma Copa do Mundo em Manaus, mas me sinto constrangido em ver que o Amazonas se vangloria por ter o estádio mais belo do Brasil, mesmo sabendo que ele ainda não passa da imaginação de meia dúzia.” Você escreveu que a Arena era imaginação ainda em fevereiro deste ano, quando a obra já estava bem adiantada.

      No mais, não foi nada pessoal, é apenas o desabafo de alguém que trabalha no projeto desde janeiro de 2010 e só ouve críticas dos próprios beneficiários, que na maioria das vezes não tem informação ou confiam em fontes não oficiais.

      Certamente a relação Prefeitura e Governo do Estado não é das melhores mas já que você tocou em Monotrilho e BRT….hoje abriu a licitação do BRT, e em mais ou menos um mês o Estado vai assinar o contrato de financiamento com a CEF ( somos os tomadores do empréstimo pois a Prefeitura não tem capacidade de endividamento – repassaremos o recurso para a Prefeitura mediante pagamento da contrapartida, e a Prefeitura é a executora e promotora do projeto). Ponto pra relação não-fraterna.

      Os pleitos de financiamento do BRT e Monotrilho iniciaram ambos em janeiro de 2010 (burocracia zero).

      Hoje no evento de sustentabilidade e legado do BID, o governador Omar disse que o consorcio vencedor da licitação do monotrilho ir’a assinar o contrato com o Governo do Estado em uma semana.

      O Ministério dos Transportes (ok, vergonha nacional ) nos enviou dois termos de referência para reforma da Manaus Moderna e do Roadway. Temos 87,9 milhões do governo federal pra uma dessas obras.

      Quanto ao aeroporto não temos gerência também, podemos apenas acompanhar. A previsão de inicio das obras é novembro.

      Nosso trabalho na UGP é o de mobilizar o Estado para a Copa, desenterrando bons projetos ou criando novos projetos, que podemos implementar com recursos da iniciativa privada, ou até mesmo com recursos do PPA – tivemos uma série de reuniões na SEPLAN com todas as secretarias identificando que ações podem ser aproveitadas para a COPA.

      Em breve acontecerão as reuniões das Câmaras Copa ( inspiradas nas federais mas com a peculiaridade local) oficialmente, envolvendo a sociedade civil organizada, prefeitura, secretarias estaduais, as setoriais etc, a fim de alinharmos as ações e esforços, recursos e projetos com a sociedade. Estamos desenhando a estrutura dos portfólios, programas e projetos desde o inicio do ano quando a UGP foi criada. Iremos apresenta-la, e discuti-la com os especialistas de cada área para detalha-los e valida-los, uma vez que somos apenas gerentes de projetos. São elas: Copa Ética, Copa Turística, Copa Desportiva, Copa Competitiva,Copa Segura, Copa Saudável, Copa Social, Copa Inovadora, Copa Sustentável.

      Nessas 9 Câmaras serão discutidos projetos como o Gastronomia Amazonas, que trabalha desde a melhoria qualitativa e quantitativa nas cadeias produtivas dos produtos regionais – perpassando por agrônomos e agricultores, até os pratos típicos nos restaurantes.

      Enfim, temos várias ações em andamento que ainda irão contaminar a população se tudo ocorrer como o esperado.

      Eu sonho com Copa quase todas as noites, e realmente espero que dê certo.

  8. Rafael Shiraiwa

    Belo texto, Andres! Minha (única) grande frustração é que precisou a cidade ser escolhida com (sub)sede do torneio da FIFA para que a cidade tivesse um “plano de desenvolvimento”, de crescer a cidade com inteligência e criar uma alternativa econômica para sair da dependência total do PIM.

    Enfim, resta esperar pra ver o que acontece…

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