Aquela lição de Eclesiastes…

No dia 8 de maio de 2008 eu escrevi um post nesse mesmo blog pra contar que eu havia passado no concurso da Suframa, e que estava na expectativa de uma convocação breve. Pois bem, breve ela não foi. Cá estou eu, três anos depois, para anunciar que já estou atuando em minha nova função do novo emprego.

Nem quero entrar em detalhe com relação aos motivos de tanta demora. Este nem é o verdadeiro objetivo deste post. A verdade é que tudo isso me fez refletir pro tempo exato das coisas, e da incapacidade do ser-humano de entender o andamento das coisas quando elas não acontecem da forma que desejamos.

De 2008 pra cá, muita coisa aconteceu na minha vida. Pessoas importantes entraram e saíram dela, aceitei e venci alguns desafios, ri e chorei por centenas de milhares de vezes. Coisas boas e ruins que julgo importante para o meu amadurecimento, para a construção do meu caráter, da minha experiência profissional e vivência.

Profissionalmente eu enfrentei a intensa e apaixonante vida de redação de jornal. Lá no Commércio, no Em Tempo e, por fim, no Portal D24AM. Fui repórter pra aprender a escrever com clareza, pra sempre encontrar a informação mais importante em cada fato, pra sempre ter perguntas qualificadas para os entrevistados, e buscar o diferencial.

Como editor do Portal, busquei o equilíbrio e mais conhecimento. Tive que aprender a liderar, a ponderar, a estudar (isso é algo que não podemos abandonar nunca). Conheci pessoas importantíssimas na minha vida, que me ajudaram nesse processo. Começar a citar colegas de trabalho que viraram grandes amigos é um convite à injustiça. Então, prefiro agradecer e acreditar que cada um de vocês vai ler esse texto.

Lembro que na época do resultado do concurso fiquei desesperado para ser chamado. Parecia a solução ideal para muitos problemas. Mas a convocação não veio. Se em 2008 eu tive dificuldade em entender tudo isso, hoje tudo me parece claro. Eu tinha que viver todas as experiências, meus amigos. Tinha que pular de cabeça na redação. Aprender com pessoas especiais e amadurecer para profissão. Agora chego aqui preparado e ainda mais feliz.

Então vamos em frente. Vamos com força, vamos com fé. Mas se tiver que esperar um pouquinho, se tiver que tirar o pé do acelerador, se tiver que ter paciência, eu terei. Meu grande avô citava Eclesiastes 3:2 pra me ensinar essa lição, mas, cabeça dura como sou, eu só aprendi com a vida. “Há tempo de nascer, há tempo de morrer. Há tempo de lutar e tempo de arrancar da terra o que se plantou”.

Obrigado, Sócrates

Como quase todo mundo da minha idade, sofri uma influência grande do meu pai para torcer pelo time que ele também idolatrava. No meu caso, Graças a Deus, esse time era o Corinthians. O que a gente não costuma saber é o motivo que levou nossos pais a tomar tal decisão. No meu caso, no entanto, não há dúvida. A culpa toda é do Sócrates.

Pra explicar essa minha dedução, tenho que falar um pouco do meu velho. Comunista, revolucionário, fiel até hoje às causas que acredita e defende. Usou o teatro contra a ditadura, gritou pelas Diretas Já!, pintou minha cara e me levou no colo, ainda moleque, para as passeatas que pediam o “Fora Collor”.

Mas meu pai era apaixonado por futebol, e encontrou em Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira um ídolo para dentro e fora dos campos. Inteligente como só ele, o “Doutor” comandou uma transformação no meu Corinthians, que jamais foi vista em outro time de futebol no mundo. Coisa de revolucionário.

A democracia corintiana pregava o respeito aos jogadores, e o espaço para que eles tomassem as decisões no clube. Parece claro. Como mola mestra de uma máquina chamada ‘clube de futebol’, nada mais justo que dar voz e voto a eles. Não tão claro assim, pelo jeito, afinal, até hoje é difícil ver algum setor do país que respeite essa relação de trabalho.

Sócrates também emprestou seu prestígio em defesa das ‘Diretas’. Meu pai deveria assistir seus discursos na televisão transbordando de orgulho. O Magrão condicionou sua permanência no Brasil à aprovação da emenda que garantia o voto direto. Como não foi aprovada, ele optou por um exílio um pouco mais democrático na Europa. Aposto que não tão fácil, pra um cara que tem brasileiro até no nome.

Cresci ouvindo essas histórias por parte do meu pai. Cresci aprendendo a respeitar aqueles que lutaram por causas maiores que o seu próprio ego. Cresci amando cada dia mais o Corinthians, o pavilhão alvinegro, a fiel torcida corintiana, o Doutor Sócrates, e o meu pai.  Cresci sabendo que ser corintiano é muito mais complexo do que se imagina.

Hoje o Corinthians pode comemorar mais um título brasileiro. Mais um de sua bela história. Mas o Doutor não estará aqui pra comemorar. Ele decidiu partir antes, só pra ser diferente, só pra revolucionar. Como seus passes de calcanhar, que abrilhantaram um dos mais belos capítulos da centenária história do Timão. Mas, onde ele estiver, espero que ele receba minha gratidão por uma das maiores alegrias da minha vida. Ser corintiano.

Obrigado, Doutor