Batendo Ponto (sobre clichê e funcionalismo público)

Falo pra vocês com toda a experiência que a vida profissional me proporcionou até hoje, não há lugar mais clichê neste mundo que uma repartição pública. As pessoas, as expressões, os gestos e comportamentos são os mesmos em cada uma delas, independente da esfera de atuação, ou do ente que representa.

Não sei explicar se funcionário público tem complexo de inferioridade ou se ele sempre superestima a importância do colega ao lado. A verdade é que o companheiro de trabalho sempre ganha tratamento de rei nas relações interpessoais. Na porta do elevador da repartição, por exemplo, é fácil ouvir o seguinte diálogo:

– Tem vaga pra mais um aí?

– Claro, meu chefe. Se não tiver, eu saio daqui para você entrar.

Aliás, é normal promover o colega de trabalho com esse tipo de tratamento. Do presidente à tia do cafezinho, todos viram chefe, presidente, comandante, ‘meu patrão’ e tantos outros nomes. Menos o estagiário, claro. Esse nunca evolui. Mas, voltando aos exemplos, funcionário público sempre acha que o colega do setor ao lado é milionário. Principalmente na fila do banco:

– Olha aí o meu patrão. Esse é o único que ainda tem um dinheirinho aqui.

Mas o pior é quando chega a sua vez no caixa eletrônico, e lá de trás (como que do inferno) vez a voz do inconveniente colega de trabalho:

– Ei, me chefe! Tira tudo não, viu? Deixa um pouco pra mim.

Você tem que dar aquele sorriso amarelo e continuar a operação, não adianta. Funcionário público que se preze tem o felling de um roteirista do “Zorra Total”, e alguns mais esforçados chegariam fácil na “Praça é Nossa”. A capacidade de constranger é proporcional ao número de cargos comissionados em qualquer repartição pública brasileira.

Agora, o mais legal em agência bancária de repartição pública é no dia de pagamento dos aposentados. Ô dia animado, viu? Os velhinhos não encaram aquilo como obrigação, é um evento social. É a oportunidade de se encontrarem e colocar a fofoca em dia. Bate até a tristeza quando o atendimento chega rápido. Também e a hora ideal pra falar das novidades:

– Menina, enfartei duas vezes esse mês.

– Ai, já eu dobrei a quantidade de remédios. Tô pagando uma fortuna

– Meu 11º netinho nasceu esse mês

– Jura? Tá feliz?

– Claro, eu e meu filho estamos. Apesar de ter a mãe que tem, ele é lindo

E ainda dizem que vida de funcionário público é fácil.

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