Ligações Perigosas

Foi nos tempos da ditadura militar no Brasil, período sombrio da nossa história, que um empresário nascido na Dinamarca ganhou fortuna e prestígio no país utilizando muito mais que o seu traquejo comercial. Henning Albert Boilesen, presidente de uma empresa que comercializava combustível no eixo Rio-São Paulo, abraçou as causas mais perversas do governo militar, e inaugurou uma nova página na perigosa relação entre o setor empresarial e as instituições públicas da nossa sociedade.

Boilesen era muito mais que um simples fornecedor para o Estado. Dono de uma fortuna invejável e gozando de grande prestígio entre seus pares, ele passou a financiar ações repressivas do governo militar, como a Operação Bandeirante, e convenceu boa parte do empresariado brasileiro a fazer o mesmo. Isso possibilitou a criação de tenebrosos órgãos de repressão, concebidos inicialmente com o objetivo de investigar movimentos populares revolucionários que surgiam no país, mas com a missão extra-oficial de torturar e matar rebeldes.

Tortura, aliás, foi o que tornou a relação entre Boilesen e o governo militar algo visceral. Os relevantes serviços prestados à ditadura garantiram a ele o direito de transitar livremente nos órgãos de repressão. Pior que isso. O empresário ganhou privilégio de acompanhar sessões de torturas a presos políticos Ele organizava caravanas de sádicos empresários que se divertiam com interrogatórios regados a choques elétricos, espancamentos, afogamentos e os mais bizarros e cruéis métodos de tortura.

O dinamarquês é responsável inclusive por trazer dos Estados Unidos um aparelho de choque conhecido por “Pianola Boilesen”, e que provoca arrepios até hoje aos sobreviventes desse período. Por motivos que me parecem óbvios, Boilesen foi morto por militantes do MRT e da Ação Libertadora Nacional (ALN) em 15 de abril de 1971, na cidade de São Paulo.

A ditadura militar ficou pra trás, mas as relações promíscuas entre governos e empresários ainda é algo bem presente em nossa sociedade. Na verdade, é mais coerente dizer que políticos ligados aos governos é que são responsáveis por isso. Basta olha para o escândalo da vez, a cachoeira de lama que inundou o congresso nacional e dezenas de governadores e prefeitos envolvidos umbilicalmente com um bicheiro. Empresas ligadas a ele prestavam serviços a diversas instituições públicas do país, com contratos, no mínimo, questionáveis.

Recentemente vimos empresários vencendo contratos milionários com hospitais públicos em troca de propina para funcionários do alto escalão. Em Manaus, a empresa de um amigo do prefeito é investigada pelo ministério público por vender merenda escolar superfaturada para o município. A mesma empresa, aliás, que é suspeita de fazer parte de um esquema de favorecimento em licitações. No Estado, políticos/empresários ganham licitações para obras gigantescas no interior do Estado, mas elas nunca são realizadas.

Não há dúvidas, então, de que essa relação é extremamente nociva para a sociedade. Assim como foi na ditadura, empresários e políticos perniciosos continuam unidos em prol de um mesmo objetivo que não tem nada de republicano. A diferença é que agora os interesses são bem menos idealistas que os de antigamente. Abraçados em uma relação de comensalismo, e ao mesmo tempo predatória para a população, eles assistem com um certo sadismo a tortura que é ver crianças sem terem o que comer nas escolas, e doentes sem atendimento nos hospitais.

Pós Post: Para saber´um pouco mais sobre esse período sangrento da nossa história, recomendo o documentário “Cidadão Boilesen”, que pode ser encontrado até no youtube.

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