Até logo, mãe!

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Oi, mãezinha.

Já tá descansando? Hoje foi um dia tenso, né? Muita gente que te ama veio prestar a última homenagem. Alguns vieram me dizer que você era uma super mulher, que era de ferro. Mal eles sabem que isso nem é verdade, né mãe? Você tinha suas fraquezas, seus medos, suas angústias. Mas você era batalhadora, uma guerreira. Além, é claro, de ser uma pessoa linda também. Mãe, hoje me perguntaram se eu queria me despedir de você pela última vez. Fui, mas apenas protocolarmente. A gente sabe que nossa despedida já rolou, né? Aliás, tá rolando tem uns anos. No período que estivemos lado a lado, dando apoio um ao outro nas muitas dificuldades que surgiram pra mim e pra você. Fico tão feliz quando lembro dos dias que ia te visitar de surpresa na escola, e você me recebia com um sorriso tão grande. E das vezes que você me pediu ajuda pra tocar os projetos, você lembra? A gente comemorava feliz da vida quando dava tudo certo, né? Você me fazia rir quando eu entrava no seu quarto a noite, e você demorava 15 segundos pra identificar se era eu ou o Pedro. Eu gostava de ficar lá deitadinho com você. Te observar assistindo tuas séries no Netflix. Séries, aliás, que você via em um dia, enquanto eu demorava meses pra terminar. E já que falei de despedida, mãezinha, não posso esquecer dos dias intermináveis que estivemos juntos na luta contra essa doença. Dias de exame, dias de quimioterapia, dias de consulta, estávamos sempre juntos. Ficávamos na sala de espera jogando show do milhão, lembra? Mas divertido mesmo era quando jogávamos abecedário. O Pedro tá até agora com raiva por ter acreditado no teu papo de que Filipenses é uma cidade. Ainda chamava a gente de povo sem cultura quando não conhecíamos os lugares que você inventava. Já tô com saudade de ser enganado por você, minha carequinha. Saudade do ovo do peitão, do “me liga quando chegar” , do “nem me ligou, né?”, das mensagens de bom dia do nosso grupo na família, do beijo enquanto eu dormia. Eita, dona Marilene. Essa saudade chegou tem pouco tempo e já me dominou. Ainda tínhamos tantos planos. A nossa viagem, o seu jardim, o nosso Natal. Vai ser difícil viver com ela. Vai ser difícil viver sem você. Mas se você tá bem, eu também tô bem. Cuida da gente aí de cima. Da um beijo na mãe Maria e no papai Alonso. Diz pro Sabazinho que esse lance de jornalismo é tenso mesmo. Aliás, curte teu amor aí. Ele devia estar com saudades também. Amo você, mãezinha. Amo tudo o que você foi pra mim, e tudo o que sempre será

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A vida que não deveria acontecer

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E de repente aquela imagem surge na tela do computador. Aparece subitamente, porém de forma marcante. Não era apenas uma foto, era um tapa na cara, um murro no estômago. Era a comprovação clara de que nós, seres humanos, somos pequenos demais. Que nossa condição de cuidadores desse planeta não justifica nossa arrogância e individualismo. Afinal, nós estamos fracassando dia após dia nessa missão. Não conseguimos nem mesmo cuidar das nossas crianças.

Aquele corpo caído à beira da praia não devia estar alí. Aliás, a curta vida daquela criança é marcada por equívocos que lhe custaram o resto do seus anos, Pra começar, ela não deveria ter nascido num país castigado por uma guerra civíl. Não é justo com eles, com seus irmãos e seus pais. Ele não deveria ter perdido membros da família para a tirania fundamentalista do Estado Islâmico. O garoto nem deveria saber o que é intolerância religiosa, o que é totalitarismo e pobreza. Isso deveria ser algo distante, apenas uma nota de rodapé nos livros de história da escola.

Não era para o pai dele tentar fugir do país. Na verdade, o ideal era que ele nem precisasse fugir. O dinheiro que ele juntou pra pagar barqueiros clandestinos deveria ter sido usado na educação do garoto, em livros, em brinquedos. Quem sabe aplicado em uma divertida viagem de férias com a família, que poderia muito bem ter a Europa como destino, Aliás, se fosse impossível evitar todos os equívocos anteriores, que pelo menos permitissem a entrada deles naquele continente. É inaceitável que nos sintamos donos absolutos de um pedaço de terra, e no direito de negar que esse pedaço de terra seja compartilhado com nossos irmãos.

Aquela família não deveria ter entrado naquele barco. Na primeira vez já não tinha dado certo e eles foram obrigados a voltar pra Síria. Na segunda tentativa o barco tava lotado de pessoas lutando por sua sobrevivência. A chance de algo ruim acontecer era grande. E aconteceu. Temos que concordar que o barco também não deveria ter alagado, e a criança não deveria ter escorregado das mãos do pai. Ele, que se agarrou com unhas e dentes em uma oportunidade pra salvar sua família, não teve forças pra sustentar e pequeno corpo do filho.

E a foto? Aquela, que comoveu o mundo e levantou um debate sobre imigração? Ela não deveria ter sido tirada. Não. Não estou dizendo que a fotojornalista deveria ter poupado o mundo de uma cena tão forte. O mundo é que deveria ter se poupado de tanta vergonha, e ter poupado também a vida daquele menino. A foto que deveria existir não era aquela. A imagem a ser eternizada era do pequeno menino brincando na areia, em um alegre dia de praia com a família. Essa foto, no entanto, nunca mais existirá.