A vida que não deveria acontecer

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E de repente aquela imagem surge na tela do computador. Aparece subitamente, porém de forma marcante. Não era apenas uma foto, era um tapa na cara, um murro no estômago. Era a comprovação clara de que nós, seres humanos, somos pequenos demais. Que nossa condição de cuidadores desse planeta não justifica nossa arrogância e individualismo. Afinal, nós estamos fracassando dia após dia nessa missão. Não conseguimos nem mesmo cuidar das nossas crianças.

Aquele corpo caído à beira da praia não devia estar alí. Aliás, a curta vida daquela criança é marcada por equívocos que lhe custaram o resto do seus anos, Pra começar, ela não deveria ter nascido num país castigado por uma guerra civíl. Não é justo com eles, com seus irmãos e seus pais. Ele não deveria ter perdido membros da família para a tirania fundamentalista do Estado Islâmico. O garoto nem deveria saber o que é intolerância religiosa, o que é totalitarismo e pobreza. Isso deveria ser algo distante, apenas uma nota de rodapé nos livros de história da escola.

Não era para o pai dele tentar fugir do país. Na verdade, o ideal era que ele nem precisasse fugir. O dinheiro que ele juntou pra pagar barqueiros clandestinos deveria ter sido usado na educação do garoto, em livros, em brinquedos. Quem sabe aplicado em uma divertida viagem de férias com a família, que poderia muito bem ter a Europa como destino, Aliás, se fosse impossível evitar todos os equívocos anteriores, que pelo menos permitissem a entrada deles naquele continente. É inaceitável que nos sintamos donos absolutos de um pedaço de terra, e no direito de negar que esse pedaço de terra seja compartilhado com nossos irmãos.

Aquela família não deveria ter entrado naquele barco. Na primeira vez já não tinha dado certo e eles foram obrigados a voltar pra Síria. Na segunda tentativa o barco tava lotado de pessoas lutando por sua sobrevivência. A chance de algo ruim acontecer era grande. E aconteceu. Temos que concordar que o barco também não deveria ter alagado, e a criança não deveria ter escorregado das mãos do pai. Ele, que se agarrou com unhas e dentes em uma oportunidade pra salvar sua família, não teve forças pra sustentar e pequeno corpo do filho.

E a foto? Aquela, que comoveu o mundo e levantou um debate sobre imigração? Ela não deveria ter sido tirada. Não. Não estou dizendo que a fotojornalista deveria ter poupado o mundo de uma cena tão forte. O mundo é que deveria ter se poupado de tanta vergonha, e ter poupado também a vida daquele menino. A foto que deveria existir não era aquela. A imagem a ser eternizada era do pequeno menino brincando na areia, em um alegre dia de praia com a família. Essa foto, no entanto, nunca mais existirá.

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