Ela não é mulher disso

Por Andrés Pascal

Jairo escolheu sua melhor roupa e caprichou no perfume antes de sair de casa. Aquela noite era especial pra ele, e nada poderia dar errado. Depois de meses de espera, finalmente ele teria um encontro com Jaqueline, a menina mais linda da fábrica onde ele trabalha. Há tempos ele investia toda sua parca elegância na dura missão de conquistar a bela menina, mas ela fazia jogo duro. Esnobou quanto quis o pobre rapaz, e dizia que jamais sairia com alguém como ele. O jamais, no entanto, deixou de existir há duas semanas, quando ela finalmente topou dar uma chance ao amor.

Ele quase não acreditou no “sim” da menina. Apesar da ansiedade, teve que enrolar um pouco para marcar o “dia D”. É que o salário só sairia no fim do mês, e sem, grana não dava pra levar Jaqueline pra um programa legal. E ele tinha noção de que ela não era mulher de um programa qualquer. Jairo saiu de casa e foi andando até a parada de ônibus, embora já houvesse decidido que jamais chegaria na casa de Jaqueline de ônibus. O plano era pegar o busão até mais perto da casa dela, e depois apanhar um táxi para buscá-la. Jaqueline não era mulher pra andar de ônibus.

Já dentro do coletivo, Jairo ia repassando todo o planejamento daquela noite. A primeira parada era em um cinema no shopping. Compraria os ingressos para o filme 3D, e garantiria o combo de pipoca e refrigerante tamanho família. Embora soubesse que um rolezinho no cinema do Centro seria mais barato, não teve coragem sequer de propor isso a Jaqueline. Cinema do Centro é muito baixo nível, e, definitivamente, ela não era mulher pra andar nesses lugares.

A etapa seguinte do encontro era um jantar em um restaurante refinado. Jairo passou a semana quase toda pesquisando lugares que cabiam em seu orçamento, mas que estivessem no nível da bela Jaqueline. Não foi fácil solucionar essa equação, mas ele enfim encontrou um restaurante japonês em um bairro chique da cidade. Comida japonesa é coisa de gente rica, e ele apostava nisso pra impressionar sua acompanhante. O problema é que ele odiava comida japonesa. Preferia comer um tambaqui na peixaria perto da sua casa a comer peixe cru. Até um churrasquinho de gato seria mais interessante, e muito mais barato também. Mas era um absurdo pensar nisso. Jaqueline não é mulher de comer essas coisas.

Depois de comer uma paleta mexicana, que é muito mais chique que picolé da massa, Jairo tentaria o grand finale. Uma noite de amor com Jaqueline. É claro que isso não seria fácil, afinal, aquele era o primeiro encontro do casal. A menina havia feito jogo duro desde o início, e agora não seria diferente. Mas, se a sorte decidisse jogar ao seu lado, Jairo estava preparado. Parte das suas economias seria para pagar um pernoite em um dos melhores motéis da cidade, em uma suíte com direito a banheira de hidromassagem. Na cabeça dele, qualquer pousadinha com uma cama limpa e a Jaqueline como companhia já seria suficiente para uma noite gostosa. Mas ele estava cansado de saber que Jaqueline não é mulher de se entregar nesses locais.

O ônibus fez uma curva brusca e Jairo acordou de seus devaneios. Estava a menos de dez minutos da casa de Jaqueline, e decidiu descer duas quadras antes para pegar o taxi. A ansiedade começou a embrulhar seu estômago. Mal dava para acreditar que iria encontrar a difícil Jaqueline. Lembrou de todo esforço que teve que fazer pra isso acontecer, e dos muitos que ainda fará. Lembrou das contas que deixarão de ser pagas este mês, e da geladeira da sua casa que ficará ligeiramente desabastecida para patrocinar essa noite.

Lembrou dos vários ‘nãos’ que recebeu, e das horas extras que ele teve que fazer. Ela nunca foi muito gentil com ele, mas há de se entender certas atitudes de moças com classe. Ela não é, por exemplo, como a Ritinha, aquela morena da montagem que o convidou certo dia para um pagode na escola de samba onde é passista, e Jairo nunca aceitou. Nem como a Silvia, do financeiro, que tem uma quedinha por ele e todo mês faz um churrasco animado na sua casa, com som ao vivo e muita cerveja, mas ele nunca vai. Jairo não tem olhos pra elas, porque só pensa em Jaqueline.

Foi aí que Jairo se tocou. Fez tanto esforço por alguém que nunca mostrou merecer. Perdeu tanto tempo tentando convencer Jaqueline de que ele poderia ser bom pra ela, mas percebeu que Jaqueline nunca foi mulher de merecer tanto esforço. Decidiu que sua noite seria diferente. Desceu do ônibus e pegou um outro em direção a sua peixaria favorita. Depois passaria na escola de samba pra ver a Ritinha dançar. Quem sabe sua noite terminaria em um motelzinho, com ou sem hidromassagem. Sabe como é, né? Jairo não é homem de ficar sofrendo por amor.

 

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1º de Julho

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Você sentava em frente a estante de discos e selecionava com paciência o que iria tocar. Às vezes era Rolling Stones, às vezes era Chico. Tinha o dia do Ney Matogrosso, dos Beatles, do Gonzaguinha e da Betânia. Tinha tanta coisa no seu repertório, mãe, que eu arrisco dizer que sua vida foi um grande show musical, daqueles apoteóticos, empolgantes. Mas pra tristeza dos teus fãs, você saiu do palco e não voltou pro bis.

E na minha cabeça a nossa relação também foi à base de música. Embora você não tocasse nenhum instrumento, e eu só arranhasse na percussão, nos apossamos de versos e notas de outras pessoas pra escrever a nossa história juntos. Foram trinta anos de estrada, mais tempo que muitas bandas mais conhecidas. A gente fez muito sucesso durante um tempo, depois vieram os desgastes e as separações. Foi aí que a formação original se reuniu para uma última turnê, e você foi incrível.

A música estava ali no nosso dia a dia. Desde moleque eu ouvia teus cantores preferidos, e ouvia você me dizer o que gostava em cada um deles. Você me ensinou a escutar atentamente as letras, a entender e interpretar a mensagem codificada nas músicas censuradas. Mas também me fez compreender que uma música pode ser apreciada ainda que não saibamos do que ela se trata. Que os riffs, os acordes tocam a nossa alma e mandam pra longe qualquer lógica ou qualquer regra. Que os shows ao vivo separam os artistas dos aventureiros.

Foi aí que eu percebi que esse processo era uma via de mão dupla. Que eu podia contribuir também. E era sensacional quando eu te apresentava uma musica boa, e você gostava logo de cara. Parece até que aquilo confirmava o quanto éramos iguais. Sem qualquer preconceito, você abria sua mente pro rap, pro rock, pro pop. Te dei de presente o seu primeiro MP3 player, já com um monte de músicas salvas. Você andava com aquele aparelhinho pra todo lado, e sempre me pedia pra colocar mais.

Mas, inesquecível mesmo, foi o show que vimos juntos. Daquela que, com certeza, foi a cantora que você mais apreciou na vida. Comprei os ingressos pra Cássia Eller sabendo que seria um momento especial, embora não imaginasse o quanto. Cantamos juntos todas as músicas. Choramos, nos abraçamos, gritamos. Voltamos pra casa e continuamos ouvindo. A Cássia nos abandonaria um mês depois daquele show, mas o que ela deixou pra nós dois foi uma trilha sonora de bons momentos e de um amor incrível.

Logo, não haveria outro jeito de perpetuar esse sentimento, se não com música. De sentir que o que você me deixou vai me acompanhar todos os dias, gravado na pele. E que eu possa me arrepiar todas as vezes que ouvir esse verso, e os acordes dessa música.

“Vamos descobrir um mundo juntos, baby. Quero aprender com teu pequeno grande coração, meu amor”