1º de Julho

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Você sentava em frente a estante de discos e selecionava com paciência o que iria tocar. Às vezes era Rolling Stones, às vezes era Chico. Tinha o dia do Ney Matogrosso, dos Beatles, do Gonzaguinha e da Betânia. Tinha tanta coisa no seu repertório, mãe, que eu arrisco dizer que sua vida foi um grande show musical, daqueles apoteóticos, empolgantes. Mas pra tristeza dos teus fãs, você saiu do palco e não voltou pro bis.

E na minha cabeça a nossa relação também foi à base de música. Embora você não tocasse nenhum instrumento, e eu só arranhasse na percussão, nos apossamos de versos e notas de outras pessoas pra escrever a nossa história juntos. Foram trinta anos de estrada, mais tempo que muitas bandas mais conhecidas. A gente fez muito sucesso durante um tempo, depois vieram os desgastes e as separações. Foi aí que a formação original se reuniu para uma última turnê, e você foi incrível.

A música estava ali no nosso dia a dia. Desde moleque eu ouvia teus cantores preferidos, e ouvia você me dizer o que gostava em cada um deles. Você me ensinou a escutar atentamente as letras, a entender e interpretar a mensagem codificada nas músicas censuradas. Mas também me fez compreender que uma música pode ser apreciada ainda que não saibamos do que ela se trata. Que os riffs, os acordes tocam a nossa alma e mandam pra longe qualquer lógica ou qualquer regra. Que os shows ao vivo separam os artistas dos aventureiros.

Foi aí que eu percebi que esse processo era uma via de mão dupla. Que eu podia contribuir também. E era sensacional quando eu te apresentava uma musica boa, e você gostava logo de cara. Parece até que aquilo confirmava o quanto éramos iguais. Sem qualquer preconceito, você abria sua mente pro rap, pro rock, pro pop. Te dei de presente o seu primeiro MP3 player, já com um monte de músicas salvas. Você andava com aquele aparelhinho pra todo lado, e sempre me pedia pra colocar mais.

Mas, inesquecível mesmo, foi o show que vimos juntos. Daquela que, com certeza, foi a cantora que você mais apreciou na vida. Comprei os ingressos pra Cássia Eller sabendo que seria um momento especial, embora não imaginasse o quanto. Cantamos juntos todas as músicas. Choramos, nos abraçamos, gritamos. Voltamos pra casa e continuamos ouvindo. A Cássia nos abandonaria um mês depois daquele show, mas o que ela deixou pra nós dois foi uma trilha sonora de bons momentos e de um amor incrível.

Logo, não haveria outro jeito de perpetuar esse sentimento, se não com música. De sentir que o que você me deixou vai me acompanhar todos os dias, gravado na pele. E que eu possa me arrepiar todas as vezes que ouvir esse verso, e os acordes dessa música.

“Vamos descobrir um mundo juntos, baby. Quero aprender com teu pequeno grande coração, meu amor”

 

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