Obrigado, Sócrates

Como quase todo mundo da minha idade, sofri uma influência grande do meu pai para torcer pelo time que ele também idolatrava. No meu caso, Graças a Deus, esse time era o Corinthians. O que a gente não costuma saber é o motivo que levou nossos pais a tomar tal decisão. No meu caso, no entanto, não há dúvida. A culpa toda é do Sócrates.

Pra explicar essa minha dedução, tenho que falar um pouco do meu velho. Comunista, revolucionário, fiel até hoje às causas que acredita e defende. Usou o teatro contra a ditadura, gritou pelas Diretas Já!, pintou minha cara e me levou no colo, ainda moleque, para as passeatas que pediam o “Fora Collor”.

Mas meu pai era apaixonado por futebol, e encontrou em Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira um ídolo para dentro e fora dos campos. Inteligente como só ele, o “Doutor” comandou uma transformação no meu Corinthians, que jamais foi vista em outro time de futebol no mundo. Coisa de revolucionário.

A democracia corintiana pregava o respeito aos jogadores, e o espaço para que eles tomassem as decisões no clube. Parece claro. Como mola mestra de uma máquina chamada ‘clube de futebol’, nada mais justo que dar voz e voto a eles. Não tão claro assim, pelo jeito, afinal, até hoje é difícil ver algum setor do país que respeite essa relação de trabalho.

Sócrates também emprestou seu prestígio em defesa das ‘Diretas’. Meu pai deveria assistir seus discursos na televisão transbordando de orgulho. O Magrão condicionou sua permanência no Brasil à aprovação da emenda que garantia o voto direto. Como não foi aprovada, ele optou por um exílio um pouco mais democrático na Europa. Aposto que não tão fácil, pra um cara que tem brasileiro até no nome.

Cresci ouvindo essas histórias por parte do meu pai. Cresci aprendendo a respeitar aqueles que lutaram por causas maiores que o seu próprio ego. Cresci amando cada dia mais o Corinthians, o pavilhão alvinegro, a fiel torcida corintiana, o Doutor Sócrates, e o meu pai.  Cresci sabendo que ser corintiano é muito mais complexo do que se imagina.

Hoje o Corinthians pode comemorar mais um título brasileiro. Mais um de sua bela história. Mas o Doutor não estará aqui pra comemorar. Ele decidiu partir antes, só pra ser diferente, só pra revolucionar. Como seus passes de calcanhar, que abrilhantaram um dos mais belos capítulos da centenária história do Timão. Mas, onde ele estiver, espero que ele receba minha gratidão por uma das maiores alegrias da minha vida. Ser corintiano.

Obrigado, Doutor

Quem curte uma pelada gostosa?

Hoje quero falar sobre o tradicional Futebol de Quinta-Feira. Este evento que nasceu nos campinhos de pelada de Manaus para contribuir com a agregação humana, ou segregação, dependendo do nível de agressividade sofrido pelos praticantes desta modalidade.

A idéia e os objetivos são bem parecidos com o do futebol comum. Visualmente, no entanto, pouco se assemelham. No Futebol de Quinta-Feira, que também é conhecido como Pelada ou Pébol, vale absolutamente tudo. Chutões, caneladas, catimba…só não vale esquecer de citar o nome da mãe do adversário na hora da provocação.

E o evento acontece na quinta-feira por um motivo estratégico. Com as partidas do Campeonato Brasileiro encerradas, os boleiros que torcem pros times vencedores têm a oportunidade única de zoar com aqueles que saíram derrotados. Cabe ao perdedor inventar as mais estapafúrdias desculpas para tentar justificar o mal rendimento do time.

Aliás, contar vantagem e inventar desculpa é com o boleiro mesmo. Em todo campinho de pelada tem aquele que chega arrotando talento digno de Ronaldo Fenômeno, e terminam a noite com um desempenho pior que o do Val Baiano. Aí tem que dizer que ta cansado, que trabalhou o dia todo ou que resolveu dar uma chance pros adversários.

Outros personagens também brilham nesse palco bizarro do pébol. Tem o cara que só chega bêbado, e sempre vira piada entre a galera com suas quedas absurdas e lances bizarros. Tem o galã, que chega todo equipado, com chuteira brilhando, e nunca joga bem. Tem também o reclamão (ou dono da bola), que nunca aceita uma derrota.

Não podemos esquecer de citar o craque. O boleiro que realmente joga bem. Solidário e humilde, ele nunca faz alarde, mas impressiona com seu futebol. O coitado, porém, sofre bullyng e é boicotado. Só é convidado uma vez. Duas no máximo. É que, para os perebas, sempre há de se prezar pela manutenção do nível amador.

E os corneteiros do time fora? Passam a noite toda sem ganhar uma partida sequer. Mas não deixam de criticar os times que estão em campo. Secando e rindo em cada jogada errada, estas hienas só ficam caladas quando levam uma bolada “acidental”, ou ouvem o famoso “Quem é que ta fora mesmo, einh?”

O futebol é algo sagrado para os boleiros. Quase um segundo lar (para alguns, o primeiro). Tanto que parte deles aproveita para levar mulheres, namoradas e peguetes para o pébol. O objetivo é fazer com que as pobres torçam por eles. Elas, no entanto preferem ignorar o evento e tricotar conversas infindáveis entre sí. Além de garantir é claro, que a “pelada” que apaixonou os seus homens é inofensiva e sem curvas.

*O nome do evento utilizado no texto é influenciado pela vivência do autor, mas pode ser adaptado para qualquer dia da semana.

1994 Fellings

Em 1994 eu tinha dez anos, e vivia a experiência de torcer pela primeira vez em uma Copa do Mundo. Torcer de fato. Mas naquela época meu mundo era bem diferente do que é hoje, e eu vou explicar porque:

Em 94 eu estava de férias da escola, e não possuía nenhuma atividade laboral.

Em 94 os dias de jogos do Brasil eram sagrados. Minha única obrigação era comer e torcer para a seleção. (ponto para 94)

Em 94, mesmo sem emprego, a molecada do bairro arrumava dinheiro para comprar bandeirinhas e tintas para enfeitar as rua.

Em 94 passávamos a madrugada pintando o asfalto e subindo em poste para amarrar fitinhas. Fazíamos isso numa boa.

Em 94 eu não me importava em usar uma blusa toda colorida comprada pela minha vó na Marechal Deodoro.

Em 94 minha vó estava aqui comigo. (que ponto para 94)

Em 94 a gente jogava futebol na rua, antes e depois dos jogos.

Em 94 minha família e amigos mais próximos se uniam para assistir os jogos.

Em 94 eu nem tinha namorada ainda. Quanto menos um amor (ponto para 2010)

Em 94 o mundial era no mesmo continente. Só mudava o hemisfério. Logo, o horário do jogo era bem mais vantajoso.

Em 94 eu não tinha meu maninho comigo. (que ponto para 2010).

Em 94 nós tínhamos o Romário em campo, e o Dunga era, no máximo, capitão.

Em 94 os times africanos não assustavam tanto.

Em 94 não existiam as vuvuzelas

Em 94 nós fomos campeões.

Corinthiano Sofredor? Graças a Deus

Caímos. O sonho mais uma vez foi adiado, e às vezes chego a pensar que é pra sempre. Desconfio que a Libertadores está para o corinthiano como as nuvens estão para o peixe. Como a neve está para o manauara.  Algo impossível, intocável. Mas, sinceramente, isso já não me preocupa mais.

Não vou desdenhar o título que não temos. Não sou assim. Ontem desabei depois da derrota. Chorei um choro de incredulidade. Como bom corinthiano, a Libertadores também era um sonho pra mim. Mas acho que esse título não tem nada a ver com a cara do Corinthians. Nem com a cara da nossa fiel torcida.

Quem muito já ganhou a taça continental se vangloria disso. Quem ganhou uma vez insiste em lembrar sempre. Eles precisam da Libertadores para marcar a história, para agradar a torcida. Precisam ser lembrados por isso, já que é a única coisa que lhes resta. Nós não. A Fiel tem o Corinthians, e o Corinthians tem a Fiel.

Torcida que justifica o nome que tem em qualquer situação. Que passou 24 anos sem título estadual e ainda assim cresceu absurdamente. Que foi ao inferno da segunda divisão e não parou de cantar e apoiar ao time. Nossa fiel torcida corintiana não vive de modismo, de títulos, de jogadores. Nós vivemos de amor, da paixão inexplicável pelo Todo Poderoso que tanto nos faz sofrer, mas também é responsável por nossas alegrias.

Portanto, se a Libertadores vier um dia eu agradeço. Vai ser mais um título para comemorarmos, gritarmos e cantarmos nas arquibancadas e na frente da TV. Mas se ela insistir em fugir de nós por toda a vida, tenho certeza que o brilho dessa torcida não se apagará jamais. Que o nome do Corinthians será entoado mais alto que qualquer outro. “Na vitória ou na derrota eu grito forte: CORINTHIANO SEREI ATÉ A MORTE!.

O Xis da desatenção

Você começa a escrever uma matéria e em um parágrafo se baseia em números e estatísticas. Mas os números não estão na sua cabeça, e necessário fazer uma pesquisa.

Só que parar a matéria pra fazer o levantamento pode ser algo negativo, pois você poderá perder o embalo e empacar de vez na construção do texto. Aí você faz como o repórter do Uol. Coloca um monte de Xis no lugar dos números e deixa para acrescentar as informações depois.

Ei, só não vai esquecer de mudar. Ele esqueceu

Clique e confira:

Futebol é pauta entre vereadores

Ouvir as discussões que rolam  na Câmara Municipal de Manaus (CMM) pode ser algo muito engraçado, principalmente aquelas que acontecem nos bastidores. Hoje os vereadores Leonel Feitoza, Joaquim Lucena e Mitoso travaram uma ferrenha discussão sobre futebol amazonense (durante a aprovação de uma mensagem enviada pelo prefeito).

Ironizado pelos colegas, Mitoso (que também é presidente do Nacional) esqueceu do ambiente que estava e emcampou uma defesa ao Leão da Vila Municipal. O diálogo entre eles aconteceu mais ou menos assim:

Joaquim: Rapaz, essa Nacional não ganha uma. Já empatou na Copa do Brasil

Mitoso: Como não? Ontem mesmo nós ganhamos um jogo

Leonel: De quem?

Mitoso: CDC Manicoré

Leonel: PUUUUtaqueopario…e eu achando que a gente tava falando de futebol.

De fato. Não consigo imaginar o que é mais difícil de aceitar. Vereadores discutindo futebol durante sessão da CMM, ou um dirigente do Nacional se vangloriando de ter vencido o CDC Manicoré. Triste

Notas e Anedotas

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Ronaaaldo – O popstar Zina, parceirão do craque Ronaldo, foi detido na madugada desta quarta-feira por porte ilegal de entorpecentes. A mais nova sensação do programa “Pânico” preso portando cocaína, conhecida popularmente como “brilho”. Sim, ele brilha muito.

Que Sucesso – A deputada estadual e eterna secretária de educação, Therezinha Ruiz, resolveu presentear os servidores da Assembleia do Estado (ALEAM) pela passagem do dia do funcionário público. O curioso é que a lembrancinha escolhida pela parlamentar já tinha sido oferecida por uma empresa local. (foto)

Espeto de Pau – Uma pesquisa da Confederação Nacional dos Transportes (CNT) apontou que as rodovias do Amazonas são as piores do país. De acordo com o levantamento, os 841 quilômetros correspondentes ao trecho total da BR-174 e da AM-010 não possuem acostamento e estão com o asfalto em péssimo estado. Nunca é demais lembrar o domicílio político do Ministro dos Transportes, né?

Mais Pior – Sarney voltou atrás e decidiu confirmar o afastamento do senadro Expedito Junior (PSDB), cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (STF) por compra de votos. Até aí tudo bem, mas o sentimento de justiça acaba quando é divulgado o nome do seu sucessor: Acir Gurgacz, proprietário da empresa União Cascavel e dono de uma enorme folha corrida na justiça.

Falta Competência – A justiça estadual parece não ter pressa alguma para acabar com a taxa de esgoto cobrada indevidamente pela Águas do Amazonas, que ganha muita grana com o serviço que não é oferecido. Uma ação movida pela ALEAM em julho do ano passado corre de vara em vara sem que alguem se mostre competente para julgar. Outra ação parecida já tem 6 anos com o mesmo problema. Quem perde são os 35 mil usuários.