Atendo o seu chamado

Às vezes visito seu jardim, agora tão abandonado, e sinto que é você quem me chama pra estar alí. Tem horas que tenho vontade de entrar na sala em que você trabalhava na escola, onde tantas vezes te encontrei no horário do almoço ou no finalzinho da tarde. Em alguns momentos me sinto atraído até nossa biblioteca, lugar no qual você adorava estar.

Normalmente procuro nesses lugares a resposta que explique porque você não está mais aqui. Fico tentando entender quais os passos que devo tomar para seguir em frente nesse caminho tão enlameado de saudades. Fico esperando que você me diga o motivo que te fez me chamar até ali.

Mas a verdade é que eu já ficaria muito feliz em ouvir de você o simples e tradicional “Não é nada não, Cao. Só fiquei com saudades e queria te ver”.

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Ela não é mulher disso

Por Andrés Pascal

Jairo escolheu sua melhor roupa e caprichou no perfume antes de sair de casa. Aquela noite era especial pra ele, e nada poderia dar errado. Depois de meses de espera, finalmente ele teria um encontro com Jaqueline, a menina mais linda da fábrica onde ele trabalha. Há tempos ele investia toda sua parca elegância na dura missão de conquistar a bela menina, mas ela fazia jogo duro. Esnobou quanto quis o pobre rapaz, e dizia que jamais sairia com alguém como ele. O jamais, no entanto, deixou de existir há duas semanas, quando ela finalmente topou dar uma chance ao amor.

Ele quase não acreditou no “sim” da menina. Apesar da ansiedade, teve que enrolar um pouco para marcar o “dia D”. É que o salário só sairia no fim do mês, e sem, grana não dava pra levar Jaqueline pra um programa legal. E ele tinha noção de que ela não era mulher de um programa qualquer. Jairo saiu de casa e foi andando até a parada de ônibus, embora já houvesse decidido que jamais chegaria na casa de Jaqueline de ônibus. O plano era pegar o busão até mais perto da casa dela, e depois apanhar um táxi para buscá-la. Jaqueline não era mulher pra andar de ônibus.

Já dentro do coletivo, Jairo ia repassando todo o planejamento daquela noite. A primeira parada era em um cinema no shopping. Compraria os ingressos para o filme 3D, e garantiria o combo de pipoca e refrigerante tamanho família. Embora soubesse que um rolezinho no cinema do Centro seria mais barato, não teve coragem sequer de propor isso a Jaqueline. Cinema do Centro é muito baixo nível, e, definitivamente, ela não era mulher pra andar nesses lugares.

A etapa seguinte do encontro era um jantar em um restaurante refinado. Jairo passou a semana quase toda pesquisando lugares que cabiam em seu orçamento, mas que estivessem no nível da bela Jaqueline. Não foi fácil solucionar essa equação, mas ele enfim encontrou um restaurante japonês em um bairro chique da cidade. Comida japonesa é coisa de gente rica, e ele apostava nisso pra impressionar sua acompanhante. O problema é que ele odiava comida japonesa. Preferia comer um tambaqui na peixaria perto da sua casa a comer peixe cru. Até um churrasquinho de gato seria mais interessante, e muito mais barato também. Mas era um absurdo pensar nisso. Jaqueline não é mulher de comer essas coisas.

Depois de comer uma paleta mexicana, que é muito mais chique que picolé da massa, Jairo tentaria o grand finale. Uma noite de amor com Jaqueline. É claro que isso não seria fácil, afinal, aquele era o primeiro encontro do casal. A menina havia feito jogo duro desde o início, e agora não seria diferente. Mas, se a sorte decidisse jogar ao seu lado, Jairo estava preparado. Parte das suas economias seria para pagar um pernoite em um dos melhores motéis da cidade, em uma suíte com direito a banheira de hidromassagem. Na cabeça dele, qualquer pousadinha com uma cama limpa e a Jaqueline como companhia já seria suficiente para uma noite gostosa. Mas ele estava cansado de saber que Jaqueline não é mulher de se entregar nesses locais.

O ônibus fez uma curva brusca e Jairo acordou de seus devaneios. Estava a menos de dez minutos da casa de Jaqueline, e decidiu descer duas quadras antes para pegar o taxi. A ansiedade começou a embrulhar seu estômago. Mal dava para acreditar que iria encontrar a difícil Jaqueline. Lembrou de todo esforço que teve que fazer pra isso acontecer, e dos muitos que ainda fará. Lembrou das contas que deixarão de ser pagas este mês, e da geladeira da sua casa que ficará ligeiramente desabastecida para patrocinar essa noite.

Lembrou dos vários ‘nãos’ que recebeu, e das horas extras que ele teve que fazer. Ela nunca foi muito gentil com ele, mas há de se entender certas atitudes de moças com classe. Ela não é, por exemplo, como a Ritinha, aquela morena da montagem que o convidou certo dia para um pagode na escola de samba onde é passista, e Jairo nunca aceitou. Nem como a Silvia, do financeiro, que tem uma quedinha por ele e todo mês faz um churrasco animado na sua casa, com som ao vivo e muita cerveja, mas ele nunca vai. Jairo não tem olhos pra elas, porque só pensa em Jaqueline.

Foi aí que Jairo se tocou. Fez tanto esforço por alguém que nunca mostrou merecer. Perdeu tanto tempo tentando convencer Jaqueline de que ele poderia ser bom pra ela, mas percebeu que Jaqueline nunca foi mulher de merecer tanto esforço. Decidiu que sua noite seria diferente. Desceu do ônibus e pegou um outro em direção a sua peixaria favorita. Depois passaria na escola de samba pra ver a Ritinha dançar. Quem sabe sua noite terminaria em um motelzinho, com ou sem hidromassagem. Sabe como é, né? Jairo não é homem de ficar sofrendo por amor.

 

1º de Julho

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Você sentava em frente a estante de discos e selecionava com paciência o que iria tocar. Às vezes era Rolling Stones, às vezes era Chico. Tinha o dia do Ney Matogrosso, dos Beatles, do Gonzaguinha e da Betânia. Tinha tanta coisa no seu repertório, mãe, que eu arrisco dizer que sua vida foi um grande show musical, daqueles apoteóticos, empolgantes. Mas pra tristeza dos teus fãs, você saiu do palco e não voltou pro bis.

E na minha cabeça a nossa relação também foi à base de música. Embora você não tocasse nenhum instrumento, e eu só arranhasse na percussão, nos apossamos de versos e notas de outras pessoas pra escrever a nossa história juntos. Foram trinta anos de estrada, mais tempo que muitas bandas mais conhecidas. A gente fez muito sucesso durante um tempo, depois vieram os desgastes e as separações. Foi aí que a formação original se reuniu para uma última turnê, e você foi incrível.

A música estava ali no nosso dia a dia. Desde moleque eu ouvia teus cantores preferidos, e ouvia você me dizer o que gostava em cada um deles. Você me ensinou a escutar atentamente as letras, a entender e interpretar a mensagem codificada nas músicas censuradas. Mas também me fez compreender que uma música pode ser apreciada ainda que não saibamos do que ela se trata. Que os riffs, os acordes tocam a nossa alma e mandam pra longe qualquer lógica ou qualquer regra. Que os shows ao vivo separam os artistas dos aventureiros.

Foi aí que eu percebi que esse processo era uma via de mão dupla. Que eu podia contribuir também. E era sensacional quando eu te apresentava uma musica boa, e você gostava logo de cara. Parece até que aquilo confirmava o quanto éramos iguais. Sem qualquer preconceito, você abria sua mente pro rap, pro rock, pro pop. Te dei de presente o seu primeiro MP3 player, já com um monte de músicas salvas. Você andava com aquele aparelhinho pra todo lado, e sempre me pedia pra colocar mais.

Mas, inesquecível mesmo, foi o show que vimos juntos. Daquela que, com certeza, foi a cantora que você mais apreciou na vida. Comprei os ingressos pra Cássia Eller sabendo que seria um momento especial, embora não imaginasse o quanto. Cantamos juntos todas as músicas. Choramos, nos abraçamos, gritamos. Voltamos pra casa e continuamos ouvindo. A Cássia nos abandonaria um mês depois daquele show, mas o que ela deixou pra nós dois foi uma trilha sonora de bons momentos e de um amor incrível.

Logo, não haveria outro jeito de perpetuar esse sentimento, se não com música. De sentir que o que você me deixou vai me acompanhar todos os dias, gravado na pele. E que eu possa me arrepiar todas as vezes que ouvir esse verso, e os acordes dessa música.

“Vamos descobrir um mundo juntos, baby. Quero aprender com teu pequeno grande coração, meu amor”

 

Los Andes

ImageMinha rápida passagem por terras peruanas só confirmaram a certeza que eu tinha, de que o mundo está cheio de paisagens, histórias e cultura a serem exploradas. A beleza e a riqueza cultural daquele país ficaram gravadas da minha mente, de onde só devem sair quando a minha hora chegar, ou quando a velhice já não me permitir resgatar lembranças importantes.

Mas quando a memória falhar, poderei recorrer às fotos que fiz. Aliás, um dos espólios mais preciosos dessa viagem são as imagens registradas, que me renderam, inclusive, uma participação na exposição Los Andes, que acontece até o dia 22 em Porto Velho. Abaixo, seguem as fotos que fiz e que estão participando da exposição.

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Também fiz questão de registrar as emoções dessa viagem em texto. Dois deles foram publicados em veículos de comunicação. Na Revista Babel, uma matéria sobre os encantos e mistérios de Machu Picchu, a cidade perdida dos Incas. Já no jornal Amazonas Em Tempo, uma visão de turista da belíssima cidade de Cusco.

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É legal legalizar?

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Legalizem as Drogas! Essa é a manchete da revista Carta Capital de maio, que traz como matéria principal um amplo debate sobre a discriminalização da maconha, do crack e de outras drogas consideradas ilícitas no país. A matéria da jornalista Paloma Rodrigues dá voz a especialistas no tema e busca experiências positivas e negativas de outros países que ousaram dar um tratamento diferente a esta questão.

Gosto da Carta Capital pela coragem editorial em colocar na pauta assuntos polêmicos, e não cair na tentação do conveniente silêncio adotado por boa parte dos veículos de comunicação do país A revista defende abertamente a discriminalização das drogas, e oferece os argumentos para  justificar seu posicionamento. O tema surge sem melindres, sem preconceito leviano e sem adotar a grita geral que tende a ecoar o discurso de moralistas radicais e religiosos estelionatários.

Eu ainda sou contra a legalização. Convivi com usuários de drogas durante um tempo e adotei uma opinião radical quanto a isso. Até que seja completamente convencido de que a discrimilização é a melhor forma de combater esse problema de saúde pública, continuarei com a minha opinião. Mas os argumentos apresentados pela Carta devem ser levados em consideração por todos que estiverem interessados em discutir o tema.

Recomendo a leitura.

A Privataria é Imortal

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O nome do ex-presidente da república, Fernando Henrique Cardoso (conhecido pela alcunha de FHC), surgiu como favorito para ocupar a cadeira nº 36 da nossa querida Academia Brasileira de Letras (ABL). Prestigiadíssimo pela nata coalhada dos veículos de comunicação do Brasil, o sociólogo é quase unanimidade, e deve ficar com a vaga.

Acontece que tá rolando na internet uma petição pública pedindo que a honraria seja dada ao jornalista Amaury Ribeiro Junior, ninguém mais ninguém menos que o autor do livro Privataria Tucana. A obra tem fortes ligações com o ex-presidente, já que denuncia os esquemas do PSDB no período em que o partido privatizou o Brasil. 

 A obra tem fortes ligações com o ex-presidente, já que denuncia os esquemas do PSDB no período em que o partido privatizou o Brasil.

Privataria Tucana foi um dos livros mais sensacionais que já li. A riqueza dos documentos apresentados e a investigação minuciosa que o autor fez ao longo dos oito anos de governo tucano surpreende. É o tipo de texto que faz qualquer jornalista acomodado repensar a carreira ao perceber que ainda tem muito que contribuir com a sociedade. Não a toa, foi ignorado por tradicionais empresas de comunicação do país.

É claro que a indicação de Amaury Ribeiro Júnior não será levada em consideração pela ABL. Tradicionalmente, jornalistas que foram imortalizados na Casa seguiram caminhos bem menos republicanos que ele. Mas a petição, que foi proposta pelo blogueiro Altamiro Borges, já tem 6,5 mil assinaturas. Se quiser saber mais sobre o assunto e assinar a petição, acesse o Blog do Miro.

Os candidatos estão no ringue. No canto direito está FHC, apoiado por José Serra, Ricardo Sergio Oliveira e todo o “team” que também foram arrolados no Privataria. Do lado esquerdo, Amaury Ribeiro Júnior tenta desbancar o tradicionalíssimo dedo podre da ABL, e mostrar que bom jornalismo se faz com ética e seriedade. Alea Jacta Est.

Ligações Perigosas

Foi nos tempos da ditadura militar no Brasil, período sombrio da nossa história, que um empresário nascido na Dinamarca ganhou fortuna e prestígio no país utilizando muito mais que o seu traquejo comercial. Henning Albert Boilesen, presidente de uma empresa que comercializava combustível no eixo Rio-São Paulo, abraçou as causas mais perversas do governo militar, e inaugurou uma nova página na perigosa relação entre o setor empresarial e as instituições públicas da nossa sociedade.

Boilesen era muito mais que um simples fornecedor para o Estado. Dono de uma fortuna invejável e gozando de grande prestígio entre seus pares, ele passou a financiar ações repressivas do governo militar, como a Operação Bandeirante, e convenceu boa parte do empresariado brasileiro a fazer o mesmo. Isso possibilitou a criação de tenebrosos órgãos de repressão, concebidos inicialmente com o objetivo de investigar movimentos populares revolucionários que surgiam no país, mas com a missão extra-oficial de torturar e matar rebeldes.

Tortura, aliás, foi o que tornou a relação entre Boilesen e o governo militar algo visceral. Os relevantes serviços prestados à ditadura garantiram a ele o direito de transitar livremente nos órgãos de repressão. Pior que isso. O empresário ganhou privilégio de acompanhar sessões de torturas a presos políticos Ele organizava caravanas de sádicos empresários que se divertiam com interrogatórios regados a choques elétricos, espancamentos, afogamentos e os mais bizarros e cruéis métodos de tortura.

O dinamarquês é responsável inclusive por trazer dos Estados Unidos um aparelho de choque conhecido por “Pianola Boilesen”, e que provoca arrepios até hoje aos sobreviventes desse período. Por motivos que me parecem óbvios, Boilesen foi morto por militantes do MRT e da Ação Libertadora Nacional (ALN) em 15 de abril de 1971, na cidade de São Paulo.

A ditadura militar ficou pra trás, mas as relações promíscuas entre governos e empresários ainda é algo bem presente em nossa sociedade. Na verdade, é mais coerente dizer que políticos ligados aos governos é que são responsáveis por isso. Basta olha para o escândalo da vez, a cachoeira de lama que inundou o congresso nacional e dezenas de governadores e prefeitos envolvidos umbilicalmente com um bicheiro. Empresas ligadas a ele prestavam serviços a diversas instituições públicas do país, com contratos, no mínimo, questionáveis.

Recentemente vimos empresários vencendo contratos milionários com hospitais públicos em troca de propina para funcionários do alto escalão. Em Manaus, a empresa de um amigo do prefeito é investigada pelo ministério público por vender merenda escolar superfaturada para o município. A mesma empresa, aliás, que é suspeita de fazer parte de um esquema de favorecimento em licitações. No Estado, políticos/empresários ganham licitações para obras gigantescas no interior do Estado, mas elas nunca são realizadas.

Não há dúvidas, então, de que essa relação é extremamente nociva para a sociedade. Assim como foi na ditadura, empresários e políticos perniciosos continuam unidos em prol de um mesmo objetivo que não tem nada de republicano. A diferença é que agora os interesses são bem menos idealistas que os de antigamente. Abraçados em uma relação de comensalismo, e ao mesmo tempo predatória para a população, eles assistem com um certo sadismo a tortura que é ver crianças sem terem o que comer nas escolas, e doentes sem atendimento nos hospitais.

Pós Post: Para saber´um pouco mais sobre esse período sangrento da nossa história, recomendo o documentário “Cidadão Boilesen”, que pode ser encontrado até no youtube.