É legal legalizar?

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Legalizem as Drogas! Essa é a manchete da revista Carta Capital de maio, que traz como matéria principal um amplo debate sobre a discriminalização da maconha, do crack e de outras drogas consideradas ilícitas no país. A matéria da jornalista Paloma Rodrigues dá voz a especialistas no tema e busca experiências positivas e negativas de outros países que ousaram dar um tratamento diferente a esta questão.

Gosto da Carta Capital pela coragem editorial em colocar na pauta assuntos polêmicos, e não cair na tentação do conveniente silêncio adotado por boa parte dos veículos de comunicação do país A revista defende abertamente a discriminalização das drogas, e oferece os argumentos para  justificar seu posicionamento. O tema surge sem melindres, sem preconceito leviano e sem adotar a grita geral que tende a ecoar o discurso de moralistas radicais e religiosos estelionatários.

Eu ainda sou contra a legalização. Convivi com usuários de drogas durante um tempo e adotei uma opinião radical quanto a isso. Até que seja completamente convencido de que a discrimilização é a melhor forma de combater esse problema de saúde pública, continuarei com a minha opinião. Mas os argumentos apresentados pela Carta devem ser levados em consideração por todos que estiverem interessados em discutir o tema.

Recomendo a leitura.

A Privataria é Imortal

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O nome do ex-presidente da república, Fernando Henrique Cardoso (conhecido pela alcunha de FHC), surgiu como favorito para ocupar a cadeira nº 36 da nossa querida Academia Brasileira de Letras (ABL). Prestigiadíssimo pela nata coalhada dos veículos de comunicação do Brasil, o sociólogo é quase unanimidade, e deve ficar com a vaga.

Acontece que tá rolando na internet uma petição pública pedindo que a honraria seja dada ao jornalista Amaury Ribeiro Junior, ninguém mais ninguém menos que o autor do livro Privataria Tucana. A obra tem fortes ligações com o ex-presidente, já que denuncia os esquemas do PSDB no período em que o partido privatizou o Brasil. 

 A obra tem fortes ligações com o ex-presidente, já que denuncia os esquemas do PSDB no período em que o partido privatizou o Brasil.

Privataria Tucana foi um dos livros mais sensacionais que já li. A riqueza dos documentos apresentados e a investigação minuciosa que o autor fez ao longo dos oito anos de governo tucano surpreende. É o tipo de texto que faz qualquer jornalista acomodado repensar a carreira ao perceber que ainda tem muito que contribuir com a sociedade. Não a toa, foi ignorado por tradicionais empresas de comunicação do país.

É claro que a indicação de Amaury Ribeiro Júnior não será levada em consideração pela ABL. Tradicionalmente, jornalistas que foram imortalizados na Casa seguiram caminhos bem menos republicanos que ele. Mas a petição, que foi proposta pelo blogueiro Altamiro Borges, já tem 6,5 mil assinaturas. Se quiser saber mais sobre o assunto e assinar a petição, acesse o Blog do Miro.

Os candidatos estão no ringue. No canto direito está FHC, apoiado por José Serra, Ricardo Sergio Oliveira e todo o “team” que também foram arrolados no Privataria. Do lado esquerdo, Amaury Ribeiro Júnior tenta desbancar o tradicionalíssimo dedo podre da ABL, e mostrar que bom jornalismo se faz com ética e seriedade. Alea Jacta Est.

Fotografar é preciso

Sempre fui muito apaixonado por fotografia, mas por muitos anos negligenciei essa paixão aqui no Agridoce. Nunca fui fotógrafo profissional. Nem sequer tenho uma câmera profissional. Mas, sempre que posso, arrisco fazer algumas fotos com câmeras amadoras e até mesmo com o celular. Só que essas fotos nunca vieram parar por aqui. A maioria tá guardada em alguma pasta velha do meu computador, esquecida no limbo da minhas lembranças.

As coisas mudaram a partir do momento que conheci o Instagram. A ideia de uma rede social apenas com fotos me deixou empolgado. Tanto para fazer as minhas fotos quanto pra ver a produção dos meus amigos. De uns tempos pra cá tenho postado material quase que diariamente, e isso tem me motivado a produzir mais. Agora decidi compartilhar parte dessas fotografias também com os leitores do Agridoce, e eu espero que todos gostem.

Minhas primeiras fotos postadas serão da viagem que fiz a Parintins (AM), na Semana Santa, pra visitar a minha família. Confiram!

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Quem estiver interessado, pode me seguir no http://www.instagram.com/andrespascal

Enquanto isso, na Fábrica de Leads…

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Chefe: Bom dia, Silva. Queria que você me explicasse a queda no número de leads produzidos nesta primeira semana. Que porra é essa, Silva?

Funcionário: Senhor, avaliamos o número como algo normal. Nesta época do ano os jornalistas costumam utilizar os mesmos leads de anos anteriores nas matérias de retrospectiva e perspectiva. A demanda cai sempre, é sazonal.

Chefe: Tudo bem. Vamos discutir as demandas de hoje então.

Funcionário: A primeira é desse rapaz de esportes, senhor. Ele está escrevendo sobre a maratona atlética das pessoas que trabalham como Papai Noel.

Chefe: Tá de sacanagem! O que é que deu na cabeça desses editores, meu Deus?

Funcionário: Fim de ano, chefe. Acabou o campeonato brasileiro. Acabaram as competições olímpicas?

Chefe: E não dá pra falar do Corinthians no mundial?

Funcionário: Já vai sair uma matéria disso, chefe. Mas eles resolveram fazer um link com o fim do mundo.

Chefe: Genial.

Funcionário: Outra demanda é da editoria de polícia. Tem uma garota tentando elaborar um lead pra uma apreensão de drogas.

Chefe: Muito bem. Quanto foi apreendido?

Funcionário: Trinta e quatro trouxinhas de cocaína, senhor?

Chefe: Que porra é essa, Silva? Trinta e quatro trouxinhas? E precisa de lead elaborado pra isso?

Funcionário: A menina tá fazendo teste no jornal, senhor. Quer impressionar os editores.

Chefe: Focas malditos. Não quero ninguem nessa demanda, entendeu? Se colocarmos isso no relatório o dono da empresa come meu fígado. Se é que ainda tenho fígado.

Funcionário: Um dos problemas dessa tarde é que as demandas estão demorando a chegar, senhor. As redações estão quase vazias.

Chefe: Tem explicação pra isso?

Funcionário: Almoço da Câmara de Dirigentes Lojistas.

Chefe: Hum. Ta explicado!

A cara de raiva do patrão é substituída por um a expressão de desespero ao ler o gráfico em vermelho no relatório.

Chefe: E esse lead cheio de gerundismo no caderno de cultura, Silva? Pelo amor de Gutenberg. Quem deixou passar isso?

Funcionário: Foi o nosso estagiário, senhor. Essa já é a terceira vez que isso acontece em menos de um mês de trabalho.

Chefe: E o que esse rapaz ainda faz na empresa? Demita-o imediatamente!

Funcionário: Senhor, gostaria de lembrar que este rapaz é o sobrinho daquele deputado federal. Foi fortemente recomendado pelo dono do jornal.

Chefe: Cacete. É f#@*$ trabalhar assim. Coloque este moleque para fazer o horóscopo então.

Depois de rever algumas anotações. O chefe se aproxima de Silva e passa a falar quase que por sussurros.

Chefe: Agora quero falar com você sobre uma denúncia de desvio de função. Fiquei sabendo que ontem fornecemos um lead para uma prova de redação. Isso é verdade?

Funcionário: É sim senhor. Eu mesmo tomei a liberdade de atender a essa demanda, senhor.

Chefe: E porque fez isso? Você tem anos de empresa e não sabe que esse tipo de auxílio é algo proibido?

Funcionário: Sei sim senhor. Mas esse rapaz estava fazendo vestibular, senhor. Ele quer ser jornalista. Tem um texto bom e é esforçado. Gosta de ler e escrever em um blog. Decidi investir nele porque pode ser alguém que facilite o nosso trabalho num futuro próximo.

Chefe: Entendi. Apague esse número do relatório e continue acompanhando este rapaz. Se passar no vestibular, em dois ou três meses ele já está escrevendo em algum portal de notícias. Pode apostar.

Ligações Perigosas

Foi nos tempos da ditadura militar no Brasil, período sombrio da nossa história, que um empresário nascido na Dinamarca ganhou fortuna e prestígio no país utilizando muito mais que o seu traquejo comercial. Henning Albert Boilesen, presidente de uma empresa que comercializava combustível no eixo Rio-São Paulo, abraçou as causas mais perversas do governo militar, e inaugurou uma nova página na perigosa relação entre o setor empresarial e as instituições públicas da nossa sociedade.

Boilesen era muito mais que um simples fornecedor para o Estado. Dono de uma fortuna invejável e gozando de grande prestígio entre seus pares, ele passou a financiar ações repressivas do governo militar, como a Operação Bandeirante, e convenceu boa parte do empresariado brasileiro a fazer o mesmo. Isso possibilitou a criação de tenebrosos órgãos de repressão, concebidos inicialmente com o objetivo de investigar movimentos populares revolucionários que surgiam no país, mas com a missão extra-oficial de torturar e matar rebeldes.

Tortura, aliás, foi o que tornou a relação entre Boilesen e o governo militar algo visceral. Os relevantes serviços prestados à ditadura garantiram a ele o direito de transitar livremente nos órgãos de repressão. Pior que isso. O empresário ganhou privilégio de acompanhar sessões de torturas a presos políticos Ele organizava caravanas de sádicos empresários que se divertiam com interrogatórios regados a choques elétricos, espancamentos, afogamentos e os mais bizarros e cruéis métodos de tortura.

O dinamarquês é responsável inclusive por trazer dos Estados Unidos um aparelho de choque conhecido por “Pianola Boilesen”, e que provoca arrepios até hoje aos sobreviventes desse período. Por motivos que me parecem óbvios, Boilesen foi morto por militantes do MRT e da Ação Libertadora Nacional (ALN) em 15 de abril de 1971, na cidade de São Paulo.

A ditadura militar ficou pra trás, mas as relações promíscuas entre governos e empresários ainda é algo bem presente em nossa sociedade. Na verdade, é mais coerente dizer que políticos ligados aos governos é que são responsáveis por isso. Basta olha para o escândalo da vez, a cachoeira de lama que inundou o congresso nacional e dezenas de governadores e prefeitos envolvidos umbilicalmente com um bicheiro. Empresas ligadas a ele prestavam serviços a diversas instituições públicas do país, com contratos, no mínimo, questionáveis.

Recentemente vimos empresários vencendo contratos milionários com hospitais públicos em troca de propina para funcionários do alto escalão. Em Manaus, a empresa de um amigo do prefeito é investigada pelo ministério público por vender merenda escolar superfaturada para o município. A mesma empresa, aliás, que é suspeita de fazer parte de um esquema de favorecimento em licitações. No Estado, políticos/empresários ganham licitações para obras gigantescas no interior do Estado, mas elas nunca são realizadas.

Não há dúvidas, então, de que essa relação é extremamente nociva para a sociedade. Assim como foi na ditadura, empresários e políticos perniciosos continuam unidos em prol de um mesmo objetivo que não tem nada de republicano. A diferença é que agora os interesses são bem menos idealistas que os de antigamente. Abraçados em uma relação de comensalismo, e ao mesmo tempo predatória para a população, eles assistem com um certo sadismo a tortura que é ver crianças sem terem o que comer nas escolas, e doentes sem atendimento nos hospitais.

Pós Post: Para saber´um pouco mais sobre esse período sangrento da nossa história, recomendo o documentário “Cidadão Boilesen”, que pode ser encontrado até no youtube.

Mototaxystem Of a Down

Nada melhor que uma situação de caos para expor as garras daqueles que não têm compromisso algum com a coletividade, e se aproveitam do sofrimento de uns para benefício próprio. Ontem a cidade de Manaus parou com a irresponsável greve dos rodoviários, que se tornou ainda mais grave com a ineficácia de um prefeito ausente e sem escrúpulos. Isso tudo tornou o nosso fragilizado sistema de transporte coletivo inerme a um vírus altamente nocivo à nossa sociedade: Os Mototaxistas.

Já dei minha opinião sobre isso algumas vezes, e pode parecer até perseguição da minha parte. Mas a verdade é que ontem voltei a me incomodar profundamente com a atitude destes “profissionais”, que se aproveitaram da falta de ônibus em Manaus para extorquir parte da população. Pra variar, a parte com o menor poder de reação. Quem foi obrigado a utilizar deste serviço para trabalhar ontem, teve que pagar preços absurdos. Houve quem cobrasse R$ 50 em trajetos que, em dias normais, custam R$ 20.

É sempre bom lembrar que a regulamentação da profissão de mototaxista foi votada recentemente pela Câmara Municipal de Manaus, e espera a sanção do senhor prefeito. Na verdade, regulamentação não é bem a palavra para descrever isto, já que ninguém regula de verdade o serviço. Ninguém pune quem cobra preços abusivos. Ninguém controla sequer o número de motos existentes na cidade. Prefiro tratar essa medida como uma simples “permissão”.

Pois bem, os mototaxistas devem ganhar essa permissão para integrarem o sistema de transporte coletivo, composto por ônibus, taxis, executivos e alternativos. A ideia não é que haja uma disputa entre eles, e sim uma cooperação. Se o amigo leitor acha que o ônibus está demorando demais, pode optar por qualquer uma dessas alternativas. É a tal da redundância, para não deixar o usuário na mão. Estes grupos, no entanto, devem cumprir regras para se manterem na legalidade.

É aí que fica evidente o compromisso que os mototaxistas têm com a população de Manaus. No momento em que o trabalhador mais precisa de uma alternativa. No momento em que os ônibus não eram uma opção, eles decidem se beneficiar do caos e lucrar muito com isso. Me revolta pensar em tamanho egoísmo. Nem era necessário cobrar mais caro para ter um lucro absurdo. Sem ônibus nas ruas, qualquer mototaxista faria mais viagens por Manaus que o Amazonino  durante o seu mandato. E ganharia muito, mesmo cobrando um valor normal.

Aí eu lembro da época em que essa “permissão” estava em discussão na Câmara. Vereadores populistas posando ao lado dos mototaxistas, defendendo o direito que o “pai de família” tem para trabalhar. Aliás, a expressão “pai de família” foi muito usada para sensibilizar a sociedade da necessidade de garantir a permissão. Mas eu pergunto: Com a permissão na mão, qual foi o mototaxista que se sensibilizou com a situação dos pais de família que precisaram usar o serviço para trabalhar ontem? Quem optou por cobrar a mesma tarifa? Quem optou por não explorar os trabalhadores? Deixo a resposta pra quem sofreu com isso ontem.

O que será que os parlamentares defensores dos mototaxistas comentariam sobre isso? É difícil até saber, já que boa parte dos vereadores gazetou trabalho ontem.  Vai ver ficaram sem ônibus para trabalhar, né? Hoje, aparentemente, tudo voltou ao normal. As paradas continuam lotadas, mas com esperança de que o ônibus vai passar. Os ônibus continuam velhos, mas já estão nas ruas. O que ficou do dia de ontem foi apenas a certeza de que, com os mototaxistas, não podemos contar.

Batendo Ponto (sobre clichê e funcionalismo público)

Falo pra vocês com toda a experiência que a vida profissional me proporcionou até hoje, não há lugar mais clichê neste mundo que uma repartição pública. As pessoas, as expressões, os gestos e comportamentos são os mesmos em cada uma delas, independente da esfera de atuação, ou do ente que representa.

Não sei explicar se funcionário público tem complexo de inferioridade ou se ele sempre superestima a importância do colega ao lado. A verdade é que o companheiro de trabalho sempre ganha tratamento de rei nas relações interpessoais. Na porta do elevador da repartição, por exemplo, é fácil ouvir o seguinte diálogo:

– Tem vaga pra mais um aí?

– Claro, meu chefe. Se não tiver, eu saio daqui para você entrar.

Aliás, é normal promover o colega de trabalho com esse tipo de tratamento. Do presidente à tia do cafezinho, todos viram chefe, presidente, comandante, ‘meu patrão’ e tantos outros nomes. Menos o estagiário, claro. Esse nunca evolui. Mas, voltando aos exemplos, funcionário público sempre acha que o colega do setor ao lado é milionário. Principalmente na fila do banco:

– Olha aí o meu patrão. Esse é o único que ainda tem um dinheirinho aqui.

Mas o pior é quando chega a sua vez no caixa eletrônico, e lá de trás (como que do inferno) vez a voz do inconveniente colega de trabalho:

– Ei, me chefe! Tira tudo não, viu? Deixa um pouco pra mim.

Você tem que dar aquele sorriso amarelo e continuar a operação, não adianta. Funcionário público que se preze tem o felling de um roteirista do “Zorra Total”, e alguns mais esforçados chegariam fácil na “Praça é Nossa”. A capacidade de constranger é proporcional ao número de cargos comissionados em qualquer repartição pública brasileira.

Agora, o mais legal em agência bancária de repartição pública é no dia de pagamento dos aposentados. Ô dia animado, viu? Os velhinhos não encaram aquilo como obrigação, é um evento social. É a oportunidade de se encontrarem e colocar a fofoca em dia. Bate até a tristeza quando o atendimento chega rápido. Também e a hora ideal pra falar das novidades:

– Menina, enfartei duas vezes esse mês.

– Ai, já eu dobrei a quantidade de remédios. Tô pagando uma fortuna

– Meu 11º netinho nasceu esse mês

– Jura? Tá feliz?

– Claro, eu e meu filho estamos. Apesar de ter a mãe que tem, ele é lindo

E ainda dizem que vida de funcionário público é fácil.