Enquanto isso, na Fábrica de Leads…

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Chefe: Bom dia, Silva. Queria que você me explicasse a queda no número de leads produzidos nesta primeira semana. Que porra é essa, Silva?

Funcionário: Senhor, avaliamos o número como algo normal. Nesta época do ano os jornalistas costumam utilizar os mesmos leads de anos anteriores nas matérias de retrospectiva e perspectiva. A demanda cai sempre, é sazonal.

Chefe: Tudo bem. Vamos discutir as demandas de hoje então.

Funcionário: A primeira é desse rapaz de esportes, senhor. Ele está escrevendo sobre a maratona atlética das pessoas que trabalham como Papai Noel.

Chefe: Tá de sacanagem! O que é que deu na cabeça desses editores, meu Deus?

Funcionário: Fim de ano, chefe. Acabou o campeonato brasileiro. Acabaram as competições olímpicas?

Chefe: E não dá pra falar do Corinthians no mundial?

Funcionário: Já vai sair uma matéria disso, chefe. Mas eles resolveram fazer um link com o fim do mundo.

Chefe: Genial.

Funcionário: Outra demanda é da editoria de polícia. Tem uma garota tentando elaborar um lead pra uma apreensão de drogas.

Chefe: Muito bem. Quanto foi apreendido?

Funcionário: Trinta e quatro trouxinhas de cocaína, senhor?

Chefe: Que porra é essa, Silva? Trinta e quatro trouxinhas? E precisa de lead elaborado pra isso?

Funcionário: A menina tá fazendo teste no jornal, senhor. Quer impressionar os editores.

Chefe: Focas malditos. Não quero ninguem nessa demanda, entendeu? Se colocarmos isso no relatório o dono da empresa come meu fígado. Se é que ainda tenho fígado.

Funcionário: Um dos problemas dessa tarde é que as demandas estão demorando a chegar, senhor. As redações estão quase vazias.

Chefe: Tem explicação pra isso?

Funcionário: Almoço da Câmara de Dirigentes Lojistas.

Chefe: Hum. Ta explicado!

A cara de raiva do patrão é substituída por um a expressão de desespero ao ler o gráfico em vermelho no relatório.

Chefe: E esse lead cheio de gerundismo no caderno de cultura, Silva? Pelo amor de Gutenberg. Quem deixou passar isso?

Funcionário: Foi o nosso estagiário, senhor. Essa já é a terceira vez que isso acontece em menos de um mês de trabalho.

Chefe: E o que esse rapaz ainda faz na empresa? Demita-o imediatamente!

Funcionário: Senhor, gostaria de lembrar que este rapaz é o sobrinho daquele deputado federal. Foi fortemente recomendado pelo dono do jornal.

Chefe: Cacete. É f#@*$ trabalhar assim. Coloque este moleque para fazer o horóscopo então.

Depois de rever algumas anotações. O chefe se aproxima de Silva e passa a falar quase que por sussurros.

Chefe: Agora quero falar com você sobre uma denúncia de desvio de função. Fiquei sabendo que ontem fornecemos um lead para uma prova de redação. Isso é verdade?

Funcionário: É sim senhor. Eu mesmo tomei a liberdade de atender a essa demanda, senhor.

Chefe: E porque fez isso? Você tem anos de empresa e não sabe que esse tipo de auxílio é algo proibido?

Funcionário: Sei sim senhor. Mas esse rapaz estava fazendo vestibular, senhor. Ele quer ser jornalista. Tem um texto bom e é esforçado. Gosta de ler e escrever em um blog. Decidi investir nele porque pode ser alguém que facilite o nosso trabalho num futuro próximo.

Chefe: Entendi. Apague esse número do relatório e continue acompanhando este rapaz. Se passar no vestibular, em dois ou três meses ele já está escrevendo em algum portal de notícias. Pode apostar.

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